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Foto: Site iBahia / Reprodução. |
Se olharmos na História do Brasil, coube aos negros da Bahia e, posteriormente, do
Rio de Janeiro de serem os percursores da criação do samba de roda. E isso se deu no período pós-abolição da escravatura
e se firmou no início do século XX. Durante muitos anos – e há quem diga que
até hoje, o samba era um ritmo musical marginalizado, que só se ouvia nos
morros e nos cortiços, de gente menos abastada.
Se pararmos para pensar, é o que
acontece, atualmente, com o funk carioca, o rap, o hip hop, etc. Ou seja, a
favela sempre foi uma forte produtora cultural, fazendo críticas severas à
sociedade ou, simplesmente, brincando com o cotidiano, com as alegrias e dessabores
de se viver à margem de uma estrutura social que caminha a passos muito lentos
por integração e justiça.
Como qualquer ritmo, o samba sofreu
várias influências e ganhou não só filhos, mas como netos e bisnetos. Do samba,
ganhamos o maxixe, o samba rock, o samba de gafieira, a bossa nova, o pagode, o axé, o afroxé,
e tantos outros que agora não me recordo. A música é mutante, assim como a
sociedade. Mas foi no samba que o Carnaval se fortaleceu como festa popular de
grande expressão cultural e econômica no nosso país.
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A cantora Ivete Sangalo em cima do trio elétrico no carnaval deste ano. Foto: Antônio Reis / Portal Terra / Reprodução. |
E foi neste #Carnaval2013 que os jornais Folha
de S. Paulo e A Tarde trouxeram
um importante debate a ser colocado em discussão: onde está o Negro no Carnaval baiano? Em entrevista
ao jornal paulistano, o Mestre em direito público pela Universidade de
Brasília (UnB) e presidente do Olodum,
João Jorge Rodrigues, 57 anos, condenou a postura do carnaval baiano de dar
mais destaque às atrações internacionais – como o cantor coreano Psy, do que
aos artistas locais. João Jorge também constatou algo que nunca tinha ganhado
holofote na imprensa: se o axé é um ritmo negro, porque as principais cantoras
baianas são brancas?
Incoerência? Racismo disfarçado?
Questão de oportunidade e talento de cada artista e não necessariamente da cor?
Numa terra em que a maioria da população é Negra, é de se estranhar que as suas
principais cantoras – do ponto de vista de visibilidade e retorno comercial,
sejam brancas, como no caso de Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Claudia Leite. E
as artistas negras, aonde estão? De momento, só me lembro de Margareth Menezes.
E as outras?
A entrevista do presidente do Olodum
teve grande repercussão durante o Carnaval, apesar das cantoras em questão
terem se negado a comentar o assunto em público. Coube ao cantor e ex-ministro
da Cultura Gilberto Gil tentar apaziguar os ânimos, na
própria Folha de S. Paulo. "Não
é a Ivete. Ela, de certa forma, se subalterna [a isso] como eu, como outros [a
demanda econômica e cultural por uma cantora neste padrão]. (...) Acho que
deviam passar dois blocos afros, mas depois um bloco de trio [de artistas
comerciais]. Não acho que deva ser um espaço reservado, porque os outros
circuitos não são", declarou.
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O cineasta norte-americano Spike Lee visita Salvador, na Bahia, para gravar um documentário sobre o Brasil. Foto: Alô, Alô Bahia / Reprodução. |
Do ponto de vista político, o
cineasta norte-americano Spike Lee –
que está em visita ao Brasil para gravar um documentário, também fez o mesmo
questionamento, em matéria do Jornal A Tarde, ao vereador soteropolitano Sílvio
Humberto (PSB), que cumpre o primeiro mandato na Câmara e é militante do
movimento negro. "[O Spike Lee me
perguntou] Por que Salvador, cidade de população predominantemente negra, nunca
teve um prefeito, governador ou senadores negros? (...) Ele achou absurdo o
fato da diversidade racial do Brasil não se refletir também nas estruturas de
poder. Isso mostra um racismo estrutural na sociedade brasileira",
contou o vereador.
Mais do que uma questão social, o
fato de Salvador – que é uma cidade de grande parte da população Negra, se ver
pouco representada na cultura e na política local, mostra que ainda há uma
grande lacuna a ser preenchida em busca da igualdade social e étnica. Se o samba no Rio
de Janeiro conseguiu se fortalecer como expressão cultural e econômica, cujo
espetáculo chama a atenção de todo mundo e mostra o envolvimento de vários
setores, porque na Bahia os artistas locais e os grupos afros são
marginalizados do circuito comercial de Trios Elétricos do Carnaval de Salvador?
Tem algo que não bate. É hora de rever esta conta.
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Jornalista