Na exposição "Deslocados Tempos", a artista Fabiana Gabaskallás investiga como diferentes sociedades representam a natureza e transformam os lugares onde vivem. A artista consulta documentos históricos e estudos científicos para compor suas pinturas de grande formato.
Entre as obras está The Anonymous, óleo sobre tela de 5,50 metros de largura. Com curadoria do Instituto Iadê de Arte e Design, a exposição abre no sábado, 7 de novembro de 2026, às 11h, no Parque do Palácio, em Belo Horizonte.
Em De que serve a terra à vista? (after Barocci), a artista retratou adultos e crianças em dois painéis que, juntos, medem cinco metros de largura. Neles predominam os tons de vermelho. Já em Discussões sobre urgências, os grupos de pessoas aparecem diante de montanhas e vegetação.
Fabiana já era médica quando começou a estudar fotografia em Rochester, nos Estados Unidos, na década de 1990. Ao pesquisar como se tratavam doenças tropicais no Brasil colonial, ela consultou documentos sobre o uso de plantas, raízes e frutos. Esses registros inspiraram suas pinturas da Mata Atlântica, nas quais a artista reinterpreta, pela escolha das cores, as descrições da floresta feitas por viajantes europeus.
A exposição pode ser visitada até 20 de fevereiro de 2027, de quarta a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados e domingos, das 9h às 18h. A entrada é pelo portão 1 da Rua Arquiteto Rafaelo Berti, 330. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada), com venda pela Sympla. Para saber mais como Fabiana Gabaskallás pensou essa exposição, acompanhe a seguir a entrevista da artista. Confira!
1) Fabiana, "Deslocados Tempos" propõe um encontro entre diferentes épocas e formas de compreender o mundo. Que inquietação deu origem à exposição e como o título ajuda a pensar as relações entre o passado e o Brasil que vivemos?
O deslocamento me interessa não apenas como movimento geográfico, mas como uma experiência humana que atravessa gerações. No Brasil, essa história está muito próxima de todos nós. Somos, em grande parte, descendentes de imigrantes. Nossas histórias familiares são feitas de rupturas, voluntárias ou forçadas, e da necessidade de reconstruir a vida em novos territórios. De alguma maneira, todos carregamos essas memórias, mesmo quando não conhecemos inteiramente suas origens.
Ao pesquisar grandes deslocamentos históricos, tento entender essas experiências na nossa própria formação contemporânea. “Deslocados Tempos” trata justamente desta sobreposição de temporalidades. O passado não é algo encerrado. Ele continua atravessando o presente, manifestando-se nas estruturas sociais, nas relações de poder, nas formas de ocupar o território e nos modos como reconhecemos determinados povos e culturas.
2) Sua trajetória passa pela medicina, pela fotografia e pela pintura. De que maneira a experiência como médica atravessa seu olhar sobre os corpos e a natureza, e como isso aparece nas escolhas artísticas de uma das obras desta mostra?
Como médicos, o contato com o corpo humano parte, inicialmente, de uma perspectiva anatômica e fisiológica. Mas a experiência dos anos nos ensina a perceber o corpo como um território complexo, atravessado por vulnerabilidades, transformações e memórias.
A pintura expandiu ainda mais este meu olhar. Nela, o corpo nunca é apenas uma abstração. Ele é o território simbólico de inscrição histórica, lugar de encontro entre o íntimo e o coletivo. Nessa convergência entre ciência, história e imaginação vou construindo minha linguagem de registro visual.
3) Sua pesquisa inclui documentos sobre a medicina no Brasil colonial e relatos de viajantes europeus sobre a Mata Atlântica. Ao transformar esses registros em pintura, como voce procura trazer a tona histórias e saberes que ficaram à margem das versões mais conhecidas sobre o país?
São tantos historiadores e historiadoras brasileiras incríveis trazendo estas informações ao nosso alcance. São tantos os documentos disponíveis. Tive a sorte de ter acesso a alguns deles, inclusive ao primeiro tratado sobre medicina escrito, de próprio punho, para o Brasil, o “Tratado de Medicina que fez o doutor Zacuto quando seu filho se foi para o Brasil”. Uma joia. Mas não me interessa apenas reconstruir visualmente uma determinada época e sim investigar o que estes registros revelam.
Os documentos sobre a medicina no Brasil colonial, por exemplo, mostram como o conhecimento circulava entre diferentes territórios e culturas. Ao mesmo tempo, permitem perceber as relações envolvidas na produção e na legitimação dos saberes. O conhecimento sobre o corpo, sobre as plantas e os tratamentos não foi construído por uma única tradição. Houve muitas trocas e apropriações.
4) Em obras como The Anonymous e De que serve a terra à vista?, muitas figuras humanas compartilham a cena. Que histórias, imagens ou experiências inspiraram esses personagens e o que suas relações revelam sob deslocamento, identidade e pertencimento?
Essas pinturas dialogam com uma questão que atravessa grande parte da minha pesquisa atual: o que acontece com a identidade de uma pessoa quando ela perde o território, a referência cultural e o lugar ao qual pertence?
Como disse, tento trabalhar com a ideia de deslocamento não apenas como movimento geográfico, mas como uma experiência profunda de ruptura. Ao longo da história, inúmeras populações foram (e ainda sāo!) obrigadas a abandonar seus lugares de origem, atravessar mares e fronteiras, reconstruir suas vidas em territórios desconhecidos e negociar permanentemente sua identidade.
Em The anonymous (Os anônimos), procurei registrar aqueles que foram apagados da história oficial, que perderam seus nomes e suas singularidades em meio às narrativas coletivas. De que serve a terra à vista? trabalha com a ideia de que avistar a terra não significa necessariamente encontrar um lugar de pertencimento. Chegar não é o mesmo que ser acolhido, assim como ocupar um território não significa necessariamente pertencer a ele.
5) Algumas de suas pinturas ultrapassam cinco metros de largura, criando um encontro físico entre o público e a obra. O que essa escala permite expressar e como você trabalha a composição para que o visitante descubra tanto a cena coletiva quanto os pequenos detalhes?
A escala é uma escolha conceitual no meu trabalho. Penso na dimensão da tela como uma maneira de construir uma experiência física para quem se aproxima da pintura. A grande escala também tem relação com a ideia de pertencimento. O corpo pintado ocupa um espaço, reivindica presença e deixa de ser apenas uma representação distante para se tornar uma experiência compartilhada com o espectador.
6) No Parque do Palácio, aos pés da Serra do Curral, a exposição encontra um espaço marcado pela natureza e pela história política de Minas Gerais. Como esse contexto dialoga com suas pinturas e que convite você faria ao visitante tendo seu primeiro contato com a arte contemporânea?
Acho especialmente significativo apresentar Deslocados Tempos em um lugar como o Parque do Palácio. A presença da Serra do Curral, da vegetação e da própria paisagem cria uma relação interessante com as questões trazidas pelo trabalho.
A natureza não aparece nele apenas como cenário. Ela é também um organismo histórico, um território de transformações. Nesse sentido, estar aos pés da Serra do Curral cria uma aproximação muito forte entre as pinturas e o território que as recebe.
Minas Gerais tem uma história profundamente marcada pela relação entre natureza, deslocamentos e poder. A própria paisagem é testemunho de transformações que ultrapassam o tempo de uma geração. Ao visitante que está tendo seu primeiro contato com a arte contemporânea, eu diria para não se preocupar em encontrar respostas certas ou compreender tudo imediatamente. Creio que a arte exista para provocar perguntas e criar associações inesperadas.
Não é necessário conhecer previamente a história ou as referências utilizadas. Cada um traz consigo seu próprio repertório de memórias e vivências. Meu convite é para que cada pessoa possa olhar com tempo, aproximar-se das pinturas e encontrar nelas alguma coisa que dialogue com sua própria experiência. O que interessa é criar um espaço de encontro entre histórias que talvez pareçam distantes, mas que, de alguma maneira, fazem parte de quem somos.
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Jornalista



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