"Não sei, só sei que foi assim", insiste Chicó em O Auto da Compadecida. Se um programa de inteligência artificial (IA) encurtasse o bordão para um simples "não sei", o filme economizaria cinco palavras e perderia uma de suas melhores piadas.
A atriz, escritora e produtora, Lara Ferry, cita o filme entre suas referências em entrevista ao Café com Notícias. Para ela, a IA tem lugar nos bastidores do cinema brasileiro. Decidir se uma palavra fica, mesmo repetida, é trabalho de quem assina o roteiro.
Em um filme independente, a mesma pessoa pode escrever, produzir e ainda ter de avisar a que horas todo mundo precisa chegar. Lara acredita que a IA pode aliviar essa carga ao ajudar a montar o cronograma de filmagem e a preparar a ordem do dia, conhecida no set como call sheet.
É nessa folha que elenco e equipe consultam o horário de chegada, o endereço da locação e as cenas que vão rodar. Ela recomenda que alguém da produção confira os dados antes do envio. Ninguém quer chegar pontualmente ao endereço errado.
Lara já recorreu à ferramenta de IA para corrigir a gramática e a pontuação dos próprios textos. Quando empaca numa frase, prefere conviver um pouco com a dúvida. Quem já apagou uma frase para voltar, meia hora depois, à primeira versão conhece esse trabalho. "Eu delego a pontuação, jamais a minha hesitação, a escolha da palavra, a decisão de dizer ou de calar", explica a autora do livro A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter.
A defesa da autoria se estende ao trabalho de quem está diante da câmera. Lara também se opõe ao uso de IA para reproduzir a imagem de artistas. Pense num close em que o roteiro pede que a personagem sorria ao receber uma notícia ruim. A atriz pode sustentar o sorriso até o corte ou deixar a tristeza aparecer um segundo antes. Até quem conhece de cor aquele rosto pode se surpreender com o que ele revela.
Da poltrona, Lara encontra um pouco de casa tanto nos causos que Chicó conta a João Grilo quanto na história de Macabéa, a datilógrafa de A Hora da Estrela. Os dois filmes a reconectam às suas origens nordestinas. “Ver na tela gente que fala como a gente e se parece com a gente dá um respiro”, diz.
Antes de conquistar a plateia, um filme precisa ganhar espaço na programação. Em 2025, 367 longas brasileiros passaram pelos cinemas do país e ocuparam 15,8% das sessões, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine).
Na avaliação de Lara, parte do público tem pouco acesso à arte e à informação sobre o que se produz por aqui. Há também quem possa pagar o ingresso e passe direto pelo cartaz. Ela defende apoiar projetos que aproximem os brasileiros da própria arte e despertem a curiosidade de quem poderia estar na poltrona ao lado.
Você teria um bom filme feito por IA para indicar a Lara? A provocação é da própria artista. Com formação na UCLA e na escola The Groundlings, ela conta quais métodos de atuação considera úteis para quem filma no Brasil. Confira a entrevista completa com a atriz, escritora e produtora, Lara Ferry:
1. Lara, na sua experiência com o cinema independente, qual é hoje o principal obstáculo entre uma boa história e sua chegada ao público brasileiro, e o que precisaria mudar para facilitar esse caminho?
Temos um problema sério de consumo de arte no Brasil, e ele é social. Nas classes menos privilegiadas, falta acesso e informação. Nas mais altas, vejo gente com muitos recursos e nenhum interesse por arte, só por bens materiais, com livros na estante que nunca foram abertos. Precisamos voltar a achar chique ser uma pessoa bem educada, instruída e curiosa, especialmente em relação à arte nacional, que é tão diversa. Isso não pertence a um lado político nem a um grupo específico: é de todos. Para as boas histórias chegarem ao público, precisamos apoiar projetos e iniciativas que aproximem a arte brasileira das pessoas e fazer arte para todos.
2. Sua trajetória inclui formação em instituições como UCLA e The Groundlings. Que aprendizado dessa experiência você considera especialmente útil para o cinema brasileiro, levando em conta as diferenças de estrutura, orçamento e identidade cultural?
Toda a minha experiência artística vem da minha vivência pelo mundo, de ter tido o privilégio de crescer, morar e trabalhar em várias cidades. Quando volto ao Brasil, percebo como é diferente a cultura de consumo de arte e a forma como as pessoas trabalham. Lá fora, vi de perto instituições apoiando seus alunos e o quanto isso transforma essas pessoas e a sociedade. A diferença cultural é inevitável, mas acredito que dá para aplicar muito do que aprendi aqui: métodos de nomes como Stanislavski, Meisner e Strasberg, que seguem influenciando a atuação no mundo inteiro.
3. Pensando na rotina de uma produção independente, em quais etapas a inteligência artificial pode contribuir de forma concreta e em quais você teria reservas em utilizá-la? Se possível, comente uma experiência própria ou uma aplicação que venha acompanhando.
A IA pode ajudar de forma concreta na parte operacional da produção, como organizar o cronograma e a call sheet. Mesmo assim, tudo precisa passar por um humano para conferir. Nunca devemos usá-la como verdade absoluta: ela é uma ferramenta, e precisamos saber usá-la com coerência. Eu também já usei para corrigir gramática e pontuação, mas nunca para escrever por mim. Quem trabalha de forma independente cuida de grande parte do processo sozinho, e nisso ela ajuda. Mas nunca para fazer a sua arte por você, quando esse ‘e o caso, o texto fica mais limpo e, na minha opinião, tedioso e vazio. Vivemos com pressa, tudo é para ontem, e a facilidade virou virtude. Só que é justamente nessa pausa que nós, escritores, precisamos ficar. Num mundo que acelera e quer otimizar tudo, quem decide que ela essa pausa e um desperdício?
4. Como atriz, escritora e produtora, que limites você considera fundamentais para o uso de inteligência artificial envolvendo roteiros, imagens e vozes de artistas, especialmente em relação a consentimento, remuneração e preservação dos postos de trabalho?
Me mostrem um filme feito por IA que seja bom e se encontrarem, por favor me enviem. Nada vai superar o ser humano. Entendo e apoio o uso da IA para organização e automação na produção, porque ajuda nesses processos. Mas quando falamos de processo criativo, como o uso da imagem de artistas e a escrita feita por IA, eu sou contra. Para mim, isso não faz sentido.
5. Na seleção de filmes enviada ao blog, você destaca obras como O Auto da Compadecida e A Hora da Estrela. O que essas histórias ensinam sobre a conexão do cinema brasileiro com seu público e como aproximá-las de quem ainda tem resistência às produções nacionais?
Essas duas histórias são especiais para mim porque falam de personagens das minhas origens nordestinas, e isso me enche de orgulho. Ver na tela gente que fala como a gente e se parece com a gente dá um respiro. Gera empatia, curiosidade e alegria. É essa identificação que conecta o cinema brasileiro ao público. Para aproximar quem ainda resiste às produções nacionais, precisamos voltar a achar chique ser uma pessoa instruída e curiosa, que se interessa pela arte do próprio país, que é tão diversa.
6. Seu livro A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter aborda a vulnerabilidade e a exposição de quem cria. Como essa reflexão influencia sua visão sobre autoria em um cenário no qual a inteligência artificial também participa da criação de textos e imagens?
Toda vez que ouço ‘IA’ e ‘arte’ na mesma frase, me dá pânico. O mais valioso da arte é a empatia, a conexão entre humanos, e perder isso para uma máquina é perder o nosso maior aliado. Não ignoro a IA: ela ajuda em organização e automação. Mas minha posição é simples: eu delego a pontuação, jamais a minha hesitação, a escolha da palavra, a decisão de dizer ou de calar. Paul Valéry dizia que um poema nunca se termina, apenas se abandona. Abandonar é uma decisão. O texto de IA nunca é abandonado, porque nunca foi sustentado: é limpo, impecável, e não há ninguém por trás. Revisão e correção são coisas diferentes: uma pessoa devolve a pergunta, a máquina devolve a resposta. A bagunça do primeiro rascunho é minha. Espero que outros artistas se sintam mais conectados à própria autenticidade, porque nossa voz é exclusivamente nossa.
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Jornalista



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