Divinópolis (MG) saiu do primeiro turno das eleições de 2026 com duas vitórias que ajudam a explicar os opostos políticos do Brasil atual. De um lado, Ana Elisa, jovem petista eleita deputada federal com votação expressiva. Do outro, Cleitinho Azevedo, senador de direita eleito governador de Minas Gerais. A mesma cidade projetou lideranças de campos políticos opostos, conectadas pela força nas redes sociais. Mas, o que essa coincidência revela sobre o voto e a disputa pelo poder?
Aos 21 anos, Ana Elisa foi eleita para a Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, com mais de 524 mil votos, sendo a segunda parlamentar mais votada em Minas. Estudante de Direito e então estagiária do Tribunal Regional do Trabalho, tornou-se a mulher mais votada de Minas para o cargo e a deputada federal mais jovem já eleita no país. Sua estreia mostra espaço para lideranças capazes de alcançar públicos que os partidos nem sempre conseguem ouvir.
Essa capacidade levou a jovem à reação petista para o segundo turno. Conhecida pelos vídeos em que contesta a extrema direita, ela passou a colaborar com a comunicação de Lula. Há uma ironia instrutiva: um partido com décadas de experiência procura uma estreante para entender a linguagem das redes sociais e dos vídeos curtos. A tarefa vai além de escolher o formato ou o conteúdo. Exige traduzir propostas e falar de futuro com quem tenta pagar as contas do presente.
A aposta nas redes, porém, exige mais que velocidade. Ao afirmar que as plataformas têm memória fraca, Ana Elisa sugeriu espaço para uma reação eleitoral rápida. Mas atenção passageira também pode produzir confiança passageira. Uma pauta diária organiza a militância; a repetição, sozinha, dificilmente convence quem está fora dela. O desafio é transformar alcance em diálogo, sem confundir milhões de reproduções com milhões de pessoas persuadidas.
Esse debate ganha gravidade diante das ameaças de morte e estupro relatadas por Ana Elisa. Sua equipe desativou a conta no X (antigo Twitter), e o Ministério dos Direitos Humanos acionou mecanismos de proteção. A intimidação de uma mulher jovem na política compromete as condições de participação democrática. Suas posições devem ser escrutinadas; sua integridade, protegida. O mesmo ambiente que abre espaço para novas vozes pode servir para expulsá-las.
Do outro lado desse retrato de Divinópolis, Cleitinho Azevedo conquistou o Governo de Minas Gerais com 55,40% dos votos válidos, mais de 6,3 milhões. Sua vitória consolida uma trajetória pela Câmara Municipal, pela Assembleia Legislativa e pelo Senado. Chamá-lo de novidade absoluta apagaria essa experiência. A forte presença digital baseada no denuncismo acompanham uma carreira construída em sucessivas eleições e na carreira anterior de cantor.
Há, portanto, uma aproximação de linguagem entre projetos diferentes. Existe a leitura e que ambos entenderam o valor de falar de maneira reconhecível, com rosto, ritmo e conflitos que cabem na tela. Isso ajuda a construir proximidade, mas não explica sozinho uma eleição. Tampouco permite concluir que seus eleitores estejam somente atrás de trends ou de polêmicas. A cidade natal em comum evidencia a pluralidade mineira; reduzir seus resultados a uma fórmula de algoritmo seria trocar análise por tutorial.
A pauta pelo o fim da escala 6x1 mostra espaço para convergências. Aliado de Flávio Bolsonaro, Cleitinho defende a votação da proposta de extingui-la, tema também abraçado pela campanha de Lula. Ao aparecer com Davi Alcolumbre, recebeu críticas de seguidores e explicou que precisava dialogar com o presidente do Senado para avançar. Eis um teste para a política das redes: como negociar quando parte da audiência trata cada encontro como prova de fidelidade?
A aproximação com Gabriel Azevedo (MDB) leva esse teste à montagem do governo. O ex-adversário aceitou participar da transição e também recebeu convite para um futuro secretariado, ainda sem pasta definida. Conversar depois da disputa é saudável. O que merece fiscalização são os critérios das escolhas, a competência da equipe e os compromissos assumidos. Amizade pode facilitar uma reunião; administrar Minas exigirá muito mais que uma boa foto.
Essa cobrança alcança os planos de renegociar a dívida com a União e preservar a Cemig sob controle estatal. Será preciso explicar como financiar investimentos e sustentar os serviços públicos. Uma promessa cabe em poucos segundos; sua execução precisa de orçamento, negociação e transparência. A habilidade de apontar problemas encontrará agora a obrigação de apresentar soluções verificáveis.
Ana Elisa, por sua vez, terá de converter a visibilidade em trabalho legislativo, fiscalização e propostas consistentes. Com atribuições distintas, ambos devem prestar contas à população. Divinópolis ofereceu ao país um resumo da consolidação dos opostos políticos que o Brasil vive. O passo seguinte depende menos de disputar o vídeo da semana e mais de justificar a confiança recebida. Afinal, o eleitor pode até acompanhar pelo celular, mas é fora da tela que a política precisa melhorar a vida da população.
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Jornalista



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