Quem acompanha uma eleição disputada conhece o ritual: atualizar a apuração, conferir os números e atualizar de novo. Em 25 de outubro, não foi diferente. O Brasil parou para acompanhar a apuração do segundo turno, que culminou na vitória de Lula. Seu quarto mandato se confirmou nas urnas, mas começou a ser construído nas ruas e nas redes, onde a mobilização crescente transformou desânimo em participação.
O resultado dá a dimensão da mudança: segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, que havia liderado o primeiro turno. A abstenção nacional caiu de 21,08% para cerca de 19,2%. No Nordeste, o petista acrescentou quase 3 milhões de votos; o adversário, cerca de 398 mil. Essa força regional somou-se à recuperação em outros territórios, especialmente Minas Gerais.
Em Minas, segundo maior colégio eleitoral, Lula reverteu a derrota da primeira rodada e contribuiu para a vantagem nacional. Manteve-se a coincidência observada desde 1989: quem chega ao Planalto também vence no estado. Isso não transforma o eleitor mineiro em oráculo de boteco, mas exige compreender suas escolhas aparentemente contraditórias.
Afinal, o estado que ajudou Lula havia eleito Cleitinho, aliado do bolsonarismo, governador no primeiro turno. Essa combinação desafia a ideia de um eleitor que compra pacotes ideológicos fechados. Preferências locais e avaliações pessoais podem produzir escolhas diferentes. Chamar essa diversidade de incoerência é desistir de ouvir.
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Na contramão disso, há quem teve dificuldades para votar. Em Salvador, denúncias apontaram redução superior a 50% da frota de ônibus. O TRE-BA acionou a Polícia Federal para a ordem de prisão do secretário de Mobilidade, mantendo a investigação. São Paulo também registrou queixas; a prefeitura disse ter comunicado às empresas a ordem judicial de oferta integral. A PF apura ocorrências em cinco estados, ainda sem conclusão sobre responsabilidades.
Em Minas Gerais, o caminho até a urna também teve intercorrências. Belo Horizonte anunciou ônibus gratuitos e 4 mil viagens extras, enquanto Contagem e Betim previram passe livre. A chuva, porém, complicou os deslocamentos na capital e na região metropolitana: árvores caídas bloquearam vias e alagamentos atingiram o Anel Rodoviário. Para quem ainda precisava votar, a atenção ao relógio se juntou à preocupação com o trajeto.
As dificuldades de acesso relatadas pelo país motivaram pedidos das duas campanhas para ampliar o horário. Cristiano Zanin autorizou a votação até as 19h nas seções ainda abertas. O TRE identificou 33.866 votos após as 17h, menos de 0,03% do total. Mesmo sem descontar quem já estava na fila, esse volume ficou muito abaixo da vantagem de Lula, superior a 4 milhões.
Garantir o acesso às urnas era parte do desafio; estimular a participação, outra. André Janones organizou o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, que ultrapassou 10 milhões de seguidores. Vídeos e tarefas de compartilhamento deram aos apoiadores ações concretas. O celular passou a servir para fazer campanha, além de acompanhá-la.
Essa mudança encontrou em Ana Elisa, deputada federal eleita pelo PT mineiro, uma voz importante. Ela participou das conversas sobre comunicação e convocou a juventude para os atos. Ao avaliar o resultado, atribuiu a recuperação à ligação entre ruas e redes. Sua contribuição aponta para uma renovação que exige dar espaço político aos jovens, além de convocá-los apenas na hora do voto nas urnas.
A presença deles ajuda a interpretar o novo ânimo da esquerda. Redes chamavam para atos, e atos geravam imagens para novas conversas. Esse movimento pode ter ajudado a virar votos, embora seguidores não equivalham a eleitores convertidos e os dados não isolem seu efeito. Reconhecer Janones e Ana Elisa é mostrar a importância de renovar a linguagem da comunicação digital do PT.
Essa dimensão coletiva impede tratar cada voto em Lula como adesão ao PT. O crescimento entre turnos é compatível com uma aliança que inclui pessoas de fora da esquerda. Interpretar parte desse apoio como defesa da democracia, dos direitos humanos e da soberania nacional faz sentido político, embora a urna não registre motivações. O governo precisará respeitar essa pluralidade: apoio eleitoral não é procuração em branco.
Até porque a vitória presidencial não produziu maioria governista no Congresso. Lula encontrará um Parlamento majoritariamente conservador e com forte presença da extrema direita. Aprovar políticas sociais exigirá negociação e recursos. A mobilização pode sustentar o debate público, mas não substitui acordos institucionais, nem a obrigação de entregar resultados.
Por isso, o maior desafio da esquerda, sobretudo o PT, após o resultado das eleições, é manter ruas e redes conectadas. A comunicação digital mostrou a sua força e deve explicar decisões, ouvir críticas e abrir espaços de participação, com informação verificável. Um governo popular se mede também pela influência da população sobre suas prioridades. A democracia ganhou fôlego nas urnas; caberá ao quarto mandato de Lula transformá-lo em direitos sociais ou condições de vida ainda melhores.
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Jornalista




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