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#CaféEntrevista: Márcio Brant analisa como o Podcast conquista atenção do público

Em entrevista, Márcio Brant debate o papel das marcas, os riscos dos cortes e o uso da inteligência artificial na produção de podcasts.


Você pula um vídeo antes do café esfriar, mas passa uma hora acompanhando um podcast. O que faz uma conversa merecer tanto tempo? Entre notificações e dedos apressados, escutar alguém até o fim parece quase uma pequena rebeldia. Microfone ligado e episódio comprido não são certificados de profundidade. É preciso ter o que dizer e respeitar quem decidiu ficar.

Essa discussão faz parte da entrevista que fizemos ao Márcio Brant, CEO e fundador da Wepod. Mestre em Artes Visuais, graduado em Música e pós-graduando em Neurociência e Comportamento. Brant acredita que o podcast pode construir relações e conquistar a confiança da audiência.

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Mas, sera que há espaço para negócios? Desde que o ouvinte encontre algo além de uma vitrine com fones de ouvido. Brant defende narrativas conectadas ao propósito da empresa e planejamento comercial para produtores independentes. Fica uma tensão importante: financiar boas conversas exige estratégia, mas o valor de uma história também pode estar na voz que ela torna audível.

Quer conhecer mais sobre este assunto? Sirva seu café, dê uma pausa e acompanhe, na íntegra, a entrevista com Márcio Brant sobre podcast, atenção e confiança. Confira!

1. Márcio, uma pessoa pode pular um vídeo em poucos segundos e, logo depois, passar uma hora ouvindo um podcast. O que esse comportamento revela sobre a nossa relação com a atenção e sobre aquilo que realmente nos dá vontade de ficar numa conversa?

O nosso tempo de atenção caiu de 2 minutos pra 40 segundos nos ultimos 20 anos, o que mostra alguns pontos importantes como nossa relação com o conteúdo, nossa pressa na aquisição de informação e principalmente a quantidade de estimulos. Hebert Simon na década de 70 já previa que a riqueza de informação acaba gerando um mundo escasso em atenção. 

Desta forma, se o conteúdo não estabelece conexões reais com o que queremos acabamos “scrollando” os conteúdos cada vez mais rápido nas plataformas. Desta forma, a hipótese que a neurociência nos ajuda a pensar é que estamos vivendo em um mundo que está contribuindo para o esquecimento e não para as reais conexões de assuntos e pessoas.

2. Na PodPesquisa 2024/2025, 50,43% dos participantes indicaram preferência por episódios de 30 a 60 minutos. Como transformar esse tempo em uma conversa que mereça a escuta, sem confundir duração com profundidade ou fazer o ouvinte pensar que o assunto já rendeu mais do que deveria?

A duração de um episódio está sempre conectada com os hábitos de consumo. Ouve-se podcast em momentos como uma corrida, um exercício na academia, um trajeto ao levar o filho na escola ou deslocar-se ao trabalho, o que acaba gerando uma minutagem em torno de 30 a 60 segundos. 

Entretanto sabemos que conversas que mereçam escuta precisam estar conectadas com aprendizagem, bons insights e conexão com o que a pessoa está realmente querendo buscar naquele momento da escolha de um conteúdo. Ao escolher o podcast como canal para aquisição de conhecimento as pessoas estão atrás do que as redes sociais não podem prover, como a profundidade.

3. Você defende que conquistar atenção, ser lembrado e ganhar confiança são coisas diferentes. Na prática, como identificar que um podcast está construindo essa confiança, e que exemplo do seu trabalho ajuda a demonstrar isso para além das visualizações e dos downloads?

Na ferramenta que construímos aqui na Wepod, conhecimento, confiança e atenção estão em momentos diferente da jornada de produção de conteúdo. Parte-se de um conhecimento da marca, que ao ser transformado em conteúdo, ou seja, em formato podcast, com o assunto certo, despertasse a atenção nas pessoas pra aquele assunto, e só depois de recorrência e compromisso com aquele audiência que chegamos à autoridade que tem no assunto e aí chegamos ao pilar da confiança - eu confio porque entendo aquele expert tem conhecimento e autoridade naquele assunto. 

Visualizações e downloads são métricas que vez ou outra podem ser confundidas com o que chamamos de “métricas de vaidade”, pois não adianta termos muitas visualizações e uma taxa de retenção baixa, ou seja, muitos clicaram mas poucos ouviram a mensagem. Sempre uso uma analogia, o que é melhor, 1 milhão de pessoas ouvindo 1 minuto, ou 1000 pessoas ouvindo o podcast todo. Via de regra sempre recebo a segunda resposta como a certa, e por aqui acreditamos nisso.

4. Quando uma marca entra na conversa, existe o risco de o podcast virar um comercial comprido com microfone e convidado. Como equilibrar os interesses da empresa, a liberdade editorial e a transparência sobre o patrocínio para que o público encontre valor naquele conteúdo?

Outro conceito importante ao trabalhar com o podcast corporativo é o que chamamos de conteúdo “não referencial”. Um podcast que está preocupado com o checkout ou a propaganda da sua marca a qualquer custo, não só não alcança a audiência como tem vida curta dentro do universo de podcast. A marca precisa estabelecer uma narrativa autêntica e uma liderança de pensamento conectada ao seu propósito no mundo - pra além do produto. Por que ela existe? A que público ela serve? Desta forma o conteúdo parte desta premissa pra trazer conteúdo de autoridade, e respostas autênticas ao seu público. Assim a marca passa a ter uma liberdade editorial.

Quando estamos falando da marca como patrocinadora de um conteúdo, ou seja, inserção desta marca em um episódio específico, ou mesmo uma temporada, aí temos outro cuidado. A oferta ou a preocupação como mídia tem pouca efetividade por dois motivos - nem sempre o público daquele episódio está conectado à marca e a audiência já está “armada” pra não fazer se conectar ao anúncio. 

Exatamente por isso que as “propagandas”mais efetivas são conteúdos “branded content” que se conectam ao propósito do podcast e deixam a liberdade editorial para o “podcaster” e aí sim, há uma assertividade, inclusive comprovado em pesquisas. De acordo com a Abpod 65% dos anúncios são efetivos quando feitos no podcast de forma autêntica e conectada com o assunto do podcast.

5. Um corte pode apresentar um podcast a novos públicos, mas também pode tirar uma fala de contexto. Como trabalhar esses trechos para despertar curiosidade sem transformar a entrevista em um campeonato de frases de efeito ou comprometer a credibilidade de quem participa?

Os cortes são um gancho para o episódio inteiro. Os cuidados com clickbait e até mesmo com frases fora de contexto são os grandes alertas do conteúdo. Por isso o corte obedece critérios específicos focados na estratégia do conteúdo e em um projeto estruturado. Por mais que o corte seja uma ferramenta para captar a atenção da audiência, ele precisa estar conectado ao que estamos querendo informar de forma responsável, a qual estratégia estamos à serviço, e qual o propósito das perguntas que queremos responder.

6. Para quem produz de forma independente, uma boa ideia precisa conviver com orçamento, divulgação e contas para pagar. Que caminhos você considera viáveis para sustentar um podcast com uma comunidade pequena e fiel, inclusive quando ele dá espaço a histórias e vozes pouco presentes nos grandes programas?

Quando estamos falando de podcast independente ou mesmo de creators em início de carreira digital é necessário sempre estar conectado em dois pilares: qual sua autoridade ou seu conhecimento e quais produtos pretendo colocar como oferta. Exatamente para o projeto se tornar sustentável exatamente pela falta de verba inicial, é importante ter claro um produto a ser oferecido a essa audiência. Por mais que o produto será oferecido após a jornada da autoridade, onde o negócio irá ser efetivo somente após a confiança no expert, essa noção de estar conectado ao negócio precisa estar na base. Um conteúdo feito sem estratégia comercial vira “palavras ao vento” e você acaba virando um canal de informação somente.

O segundo ponto da sua pergunta que envolve a palavra comunidade fiel é a conexão que amplifica a autoridade e gera conexões verdadeiras e negócios lucrativos. Uma comunidade que ouve seu conteúdo, te segue, no final do dia, acaba comprando o que você oferece. Por isso pensar no que seu público procura, responder às dúvidas, promover ações reais de engajamento, trazer histórias que conecte-se às pessoas são ingredientes básicos e essenciais para um canal de conteúdo de sucesso.

7. Da sua participação no Podcast Movement NYC 2026, qual discussão mais fez você repensar o mercado brasileiro e como esse aprendizado pode ser adaptado às condições de produção e aos hábitos de escuta daqui?

O Podcast Movement é o maior festival de podcast do mundo e acontece na “terra dos podcasts”, onde tudo começou e onde temos uma indústria mais madura. Entretanto percebi dois pontos que precisamos nos orgulhar como brasileiros. O primeiro ponto é que estamos construindo uma história com a nossa indústria de podcast em termos de conteúdo e audiência que está anos luz na frente dos americanos, o que reitera inclusive a posição do Brasil no mundo como maior produtor e consumidor de podcast do mundo de acordo com a Statista. 

Outro ponto importante e que traz luz à minha pesquisa é que o tema da guerra da atenção foi ouvido com muita atenção pela comunidade, pois como “backstage” da economia criativa, precisamos ter um pensamento crítico de como o consumo de conteúdo e a produção está criando um mundo caótico, com “overload cognitivo”, menos lembrança e memória do que estamos consumidos e cada vez menos retenção do que chega aos nossos olhos e ouvidos. Ao trazer o viés da neurociência e conectar à criação do podcast consegui abrir uma porta direta com o mercado americano que fez sentido à nossa comunidade podcaster.

Desta forma, alinhado ao meu propósito com as marcas e os criadores de conteúdo tem sido demonstrar a importância do podcast como canal de conteúdo e comunicação e como ao fazer essa escolha estamos contribuindo para um mundo mais profundo e menos superficial na economia criativa, inclusive com a seguinte provocação que estamos trazendo na nossa campanha: “E se a gente desacelerasse?”

8. Se a relação com o público depende tanto da confiança em quem fala, que limites você considera essenciais para o uso de inteligência artificial em roteiros, edição e vozes, preservando a autoria, a transparência e a responsabilidade pelo que chega ao ouvinte?

A inteligência artificial é uma excelente ferramenta de produtividade nos dias de hoje, não há como voltar atrás, inclusive tem trazido produtividade e assertividade em todo o workflow do nosso trabalho. Entretanto, em um mundo com tanta desconfiança e tanta artificialidade, nunca foi tão importante o papel do humano. As pessoas precisam das pessoas em um mundo de posts, imagens, vídeos artificiais. E é por isso que o podcast exerce um papel essencial nas conversas, histórias e nas trocas entre pessoas. Ou seja, o podcast é um movimento “human first”. No final do dia estamos voltando às rodas de conversas ancestrais na beirada da fogueira onde aprendíamos entre gerações. É assim que o conhecimento passava entre as pessoas e hoje o podcast cumpre este mesmo objetivo.




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Jornalista

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