Café Literário - Livro Jorge, um brasileiro fala sobre a vida de caminhoneiro

maio 16, 2013



Bem-vindo ao Café Literário, a sua dose semanal de literatura! Nesta temporada, a seção está sob os cuidados do escritor em formação, apaixonado por literatura e autor do blog Escriba Encapuzado, Tiago K. Pereira*, novo colunista do blog @cafecnoticias. Semanalmente, você irá conferir por aqui novidades do mundo literário, entrevistas, resenhas e, até mesmo, sorteio de livros. Acompanhe:

Saudações literárias, querido leitor. Esta semana, trago a resenha do livro Jorge, um brasileiro, obra premiada do escritor mineiro Oswaldo França Júnior. O nome não parece familiar? Então me permita apresentar este que foi, sem dúvida, um dos maiores escritores da história recente do Brasil antes de ir para a nossa crítica literária.

De soldado a escritor

Oswaldo França Júnior nasceu na cidade mineira de Serro em 1936 e residiu em várias outras, como Belo Horizonte, Ouro Preto e Barbacena – onde concluiu, em 1959, o curso de formação de Oficiais Aviadores. Especializou-se em aviação de combate em Fortaleza/CE e serviu à Força Aérea Brasileira (FAB) em Porto Alegre/RS.

Em 1961, integrava o Esquadrão que se recusou a bombardear o palácio do então governador gaúcho Leonel Brizola, que proclamava a legalidade da posse do vice-presidente João Goulart, o Jango, quando da renuncia de Jânio Quadros. Três anos depois, durante o Golpe Militar que destituiu Jango, foi acusado de subversão e expulso das Forças Armadas, deixando incompleto um curso de Economia.
Ilustração baseada em uma foto de Oswaldo França Júnior feita por Nelson Cruz
e que foi usada na capa do Suplemento Literário de Minas Gerais. Foto: Reprodução.

Com 28 anos, casado, três filhos e proibido de exercer a profissão de piloto, França Júnior se via obrigado a mudar com frequência de cidade e emprego: foi corretor de imóveis, vendedor de carros usados e ações, gerente de linha de ônibus e sócio de empresa de táxi, publicitário, dono de banca de jornais e de barraquinha de pipoca – não necessariamente nesta ordem. Então decidiu ver se ganhava dinheiro escrevendo, ele que ganhara um concurso de poesia na juventude e escrevera para revistas e jornais militares.

Disse ao escritor contemporâneo Ziraldo em entrevista quando perguntado se decidira se tornar escritor de uma hora para outra: “você sabe que a coisa não é bem assim. (...) Quando pensei em ganhar dinheiro escrevendo é porque inconscientemente eu vinha sendo um romancista há muito tempo. (...) Lendo, observando. Mas foi aí, nessa ocasião, que resolvi pela primeira vez realmente escrever um livro”.

De posse de um punhado de contos, França Junior foi ao Rio de Janeiro/RJ e procurou pelo autor Rubem Braga, que gostou muito de seu trabalho. Quando questionado se não teria um romance pronto para publicação – já que “conto não vendia” –, o escritor mineiro disse que sim, mas que ainda precisava fazer algumas correções. Valendo-se desta mentira, França Júnior escreveu, em poucos meses o livro O Viúvo – sua primeira obra, publicada em 1965 pela Editora do Autor, sob o comando de Braga e do também escritor mineiro Fernando Sabino.
Capa do livro Jorge, um brasileiro, cartaz do filme e cena da série Carga Pesada. Foto: Reprodução.

Desde então, 13 livros foram produzidos, mas a consagração veio mesmo com seu segundo romance, Jorge, um Brasileiro – publicado em 1967 e vencedor do Prêmio Walmap, um dos mais prestigiados da época e que contava, entre os jurados, com Guimarães Rosa e Jorge Amado. O livro inspiraria o seriado Carga Pesada em 1979 e seria adaptado pelo cineasta Paulo Thiago em 1988. Abaixo, assista ao vídeo com a música tema feita para o filme por Milton Nascimento:


Oswaldo França Júnior faleceu em 1989, às vésperas de completar 53 anos, num acidente de carro na BR-381 (antiga BR-262), próximo a João Monlevade/MG – ironicamente, a chamada Rodovia da Morte foi também palco dos perigos enfrentados pelo protagonista de sua obra mais famosa. Pouco tempo antes, França fora anistiado e reformado como Coronel Aviador.

Em 2009 foi homenageado com uma edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais. Os livros dele, que já foram traduzidos na França, Estados Unidas, Alemanha e outros países, hoje carecem de reedições. Jorge, um brasileiro ainda está à venda em sites como a Americanas e o Submarino.

Resenha: Mais que um brasileiro

Jorge é um experiente caminhoneiro incumbido por seu patrão, o outrora idolatrado senhor Mário, de uma árdua tarefa: viajar até Caratinga, no interior de Minas Gerais, para liderar um comboio de oito carretas abarrotadas que estão presas devido ao tempo chuvoso que assola o Estado.

Insatisfeito com sua situação e com o súbito rompimento com a namorada, Sandra, ele parte para enfrentar estradas intrafegáveis, barreiras caídas, enchentes e outros perigos. Ao longo do caminho, Jorge revisita lugares e pessoas e revive a vida de outros tempos.
Foto: Mercedes-Benz / Divulgação.

Jorge, um brasileiro se revela um relato pessoal do protagonista pelas estradas do país. Narrado em primeira pessoa e em tom de confidência, o narrador-protagonista se dirige o tempo todo a um interlocutor que nunca é revelado – provavelmente, o próprio leitor. Não existem divisões de capítulos: a história é desenvolvida num ritmo contínuo, sem pausas e sem linearidade.

Em vários momentos, Jorge desvia-se do assunto principal (a viagem à Caratinga) para contar casos paralelos, de outra época e lugar, como normalmente ocorre numa conversa onde um caso puxa outro caso, alguns dos quais nunca são satisfatoriamente concluídos.

Esta preocupação com o tom de relato oral é evidente na construção do texto, que apresenta períodos longos, repletos de vírgulas. Contudo, qualquer estranheza ou incomodo que isto possa provocar a princípio é logo superada – em parte pela qualidade da narrativa, em parte pela escrita simples e coloquial de França Júnior – e o leitor passa realmente a ouvir a história de Jorge.

Essas características enriquecem a obra, mas prejudicam aqueles que não podem fazer uma leitura contínua; retornar ao texto posteriormente é como pegar uma conversa pela metade. A despeito de toda a técnica do autor, foram os personagens que me cativaram, em especial o prático e introspectivo protagonista; Altair, o amigo do bordel; e Oliveira, o mais resmungão dos oito caminhoneiros liderados por Jorge.
O autor Oswaldo França Júnior em diversos momentos da carreira. Foto: Reprodução.

França Júnior foi capaz de capturar com realismo os aspectos típicos do povo brasileiro e embuti-los em personalidades únicas e fascinantes. As divertidas discussões entre os torcedores do Atlético Mineiro e do Cruzeiro são igualmente memoráveis, cabe dizer.

O desfecho me pareceu previsível e ficou a desejar: a atitude do protagonista é fascinante e condiz com tudo o que foi contado até ali, mas me incomodou não haver qualquer indício de seu destino. Contudo, França Júnior disse certa vez que, para ele, o objetivo da literatura era transmitir emoção através da palavra, e isso Jorge, um brasileiro faz e com maestria.

Avaliação literária (Nota de 1 a 5):








*Perfil: Tiago K. Pereira é escritor de coração e servidor público por necessidade. Aficionado por letras, livros e curiosidades do mundo nerd, Tiago busca realizar seu sonho de se tornar um escritor profissional. Entre rascunhos de histórias e telas de programação, ele se aproxima do mundo da literatura escrevendo no Escriba Encapuzado e para a seção Café Literário do blog Café com Notícias.






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6 comentários

  1. Francisco Bertoletta16 de mai de 2013 20:35:00

    Não sabia que esse livro tinha inspirado o seriado Carga Pesada e, muito menos já tinha virado um filme. Gostei muito da resenha desta semana, parabéns Tiago.

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    1. Francisco,

      Que bom que gostou. Agora que já li o livro estou procurando um espaço na agenda para assistir ao filme. :)

      Abraço.
      Tiago K. Pereira – o Escriba Encapuzado
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  2. Excelente dica de livro. Lembro que na casa do meu pai tinha um exemplar dele. Acho o título forte e o modo como o autor conta a história é o maior trunfo do livro. Quem não leu, leia. Vale super a pena. Detalhe: adorei as xicrinhas com a nota do livro. Sensacional!

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    1. Daniela,

      Encontrei o exemplar que li na biblioteca da minha cidade, meio esquecido na sessão de literatura brasileira. ;)

      Abraço.
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  3. Meu pai foi caminhoneiro durante muitos anos, criou eu e meu irmãos assim. Não conhecia esse livro...fiquei com vontade de ler. Pela resenha, parece ser um bom livro.

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    1. Vilmar,

      Então é bem possível que você aprecie o livro muito mais do que eu. No seu caso, é leitura mais do que recomendada. :)

      Abraço.
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