#ReportagemEspecial: Tráfico Humano ainda é um problema invisível

maio 17, 2013



A novela das nove Salve Jorge, exibida pela Rede Globo, termina nesta sexta-feira (17/05). Apesar dos tropeços no folhetim, a autora Glória Perez deixa um legado interessante: o debate do tráfico humano, que ainda é tratado como um problema invisível. De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 20 milhões de pessoas em todo mundo são vítimas de trabalho forçado em péssimas condições de salubridade.

Desses, 11,4 milhões são mulheres; 18,7 milhões dessas vítimas são exploradas (laboral ou sexualmente) e 2,2 milhões pelo próprio Estado em campos de trabalhos forçados como medida punitiva em países como a China. Segundo relatório do Sistema Nacional de Estatísticas de Segurança Pública e Justiça Criminal, houve no Brasil, entre 2006 e 2011, 1.735 vítimas de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual. Já em 2012, a Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho e Emprego resgatou 2.849 pessoas que eram exploradas por meio de mão de obra.

“O tráfico humano é um crime muito difícil de ser combatido. É tido como um crime subterrâneo. As pessoas não percebem o que está acontecendo, e as vítimas, geralmente, não denunciam por medo ou vergonha. Por isso, precisamos encorajar este tipo de denúncia para inibi-lo. No Brasil, o Disque 180, da Central de Atendimento à Mulher, e o Disque Denuncia (Disque 100), já recebem denuncia de tráfico humano e tem ajudado muito no enfrentamento deste problema”, explica o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, que em fevereiro deste ano participou do lançamento do II Plano de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas.

Atualmente, o tráfico humano é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo, com lucro anual estimado em US$ 31,6 bilhões e com ramificações que, muitas vezes, é difícil de provar na Justiça, uma vez que os líderes da quadrilha se utilizam de máscaras sociais para não serem descobertos ou expostos. Além disso, o Brasil tem uma legislação atrasada que não tipifica, por exemplo, o tráfico de órgãos.

Para o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão Júnior, as maiores vítimas do tráfico humano no Brasil são mulheres na faixa de 14 a 29 anos. Ele ressalta que a cooperação internacional é fundamental para o enfrentamento do tráfico internacional de pessoas e que o trabalho de conscientização e mobilização entre os jovens e das redes sociais podem ajudar muitas que ainda desconhecem as formas de aliciamento deste crime.

“Tenho muita esperança de que esta juventude possa engajar-se neste processo de difusão, de conhecimento da matéria do tráfico de pessoas. Em levar adiante as conquistas em termos de liberdades públicas, de afirmação democrática, de defesa dos direitos humanos. Os membros do tráfico são muito envolventes, por isso a base familiar, o acolhimento das vítimas pode fazer a diferença”, comenta Paulo Abrão Júnior.

Traficado

A promessa de dinheiro rápido, fez com que Junior* entrasse no mundo da prostituição aos 15 anos. “Meus pais trabalhavam o dia inteiro, ganhavam pouco e a gente passava por muita dificuldade. Tinha vergonha de pedir dinheiro para eles e achava que poderia ganhar meu próprio dinheiro dessa forma. Meu sonho era ser ator pornô, então via o fato de fazer programa como um caminho até ser descoberto por alguma grande produtora”. 

Foi aí que Junior* descobriu a prostituição por meio de um amigo. “Muitos caras ficam deslumbrados com a possibilidade de dinheiro fácil. No início, esse meu amigo me deu as coordenadas, as dicas de onde fazer ponto, de me passar clientes vips, de fazer meu marketing...mas essa vida não tem nada de fácil. Passei por muitas humilhações, clientes em que tive nojo e muito calote. Cheguei fazer muita coisa da qual me arrependo...ninguém nunca ligou que eu era menor de idade”.

Até que um dia, Junior* recebeu um convite para trabalhar no Rio de Janeiro como modelo. “Nunca tinha saído da minha cidade e achei que no Rio eu mudaria de vida, que ganharia em dólar ou em euro e que não ia precisar mais me prostituir. Quando cheguei lá, vi que a coisa era feia. Era para trabalhar em um privê (Casa de Prostituição). Éramos obrigados a fazer uns dez programas por dia e eu nem via a cor do dinheiro. Eu e os outros caras éramos vigiados por seguranças o tempo todo e o dono da casa estimulava os boys a usarem drogas, ficar saradão, usar bomba, porque ele lucrava com isso”.
Foto: Aussiebum / Reprodução.

Ameaças, intimidações e medo o rondavam o tempo todo. Várias vezes, Junior* pensou que ia morrer naquela casa fazendo programa e que nunca mais ia ver os pais. “Tinha cliente que pagava para ver um cara brigando com o outro até ficar todo acabado no chão ou se masturbar na frente de todo mundo. Era muita humilhação. Pensei que ia morrer. Cheguei a usar droga como uma forma de fuga. O dono da casa mandava um grupo de boys para a praia jogar futevôlei ou ficar de bobeira na areia em Ipanema para atrair os gringos. A casa tinha salas de jogos, quartos, sauna e funcionava 24h. Já cheguei virar o dia na pista sem poder parar. Aquilo não era vida”.

Depois de ficar dois anos sendo explorado no Rio de Janeiro, Junior* conseguiu ligar escondido para fazer a denuncia anônima, após pegar o celular de um cliente sem ele perceber. “No dia, fiquei morrendo de medo do dono da casa descobrir. Ficava na ansiedade da polícia chegar, prender aqueles caras e soltar a gente. Mas nada disso aconteceu. Muitos meses depois, um cliente gringo me escolheu para passar três dias em Angra com ele. Quando voltei, o privê estava fechado. Não sei se a polícia fechou ou se eles fugiram. O cliente me deixou na rua só com a roupa do corpo. Fiquei desesperado. Não tinha documento. Passei duas semanas na rua sem rumo. Até que criei coragem e liguei para os meus pais. Eles me perdoaram, me aceitaram de volta. Nem acredito que sobrevivi”.



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* A pedido do entrevistado que vive hoje uma nova vida, o nome real dele não será identificado.




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Jornalista

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5 comentários

  1. Oi, querido!
    Lamento profundamente que a novela da Glória Perez não tenha conseguido dar a esse problema tão relevante a visibilidade e importância que ele tem.
    Não acompanhei a novela mas vi os comentários via twitter e por outras mídias.
    A gravidade desse problema por si só caberia uma discussão séria, como a que está sendo proposta pelo post, no entanto é penoso constatar que preferiu-se tratar a novela como uma pândega ao invés de dar o espaço devido ao tema que como acabamos de ler é tão grave que nos parece fantasioso, irreal.
    De qualquer forma fica a semente.

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  2. Francisco Bertoletta17 de mai de 2013 11:47:00

    Wander, não assisto a novela. Mas fiquei chocado com os números a respeito do tráfico humano e com a história desse rapaz que resolveu se prostituir com 15 anos e viveu tudo isso. Esse problema não só é invisivel como muita gente nem faz ideia de que isso pode existir aqui dentro do nosso país. Quem frequenta essas casas de prostituição deveria ler esta sua reportagem, pois está alimentando este tipo de crime.

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  3. Puxa vida...é muito triste o depoimento desse garoto que começou na prostituição tão cedo e que foi traficado aqui mesmo no Brasil. O que mais existe são casos assim....parabéns pela reportagem.

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  4. E a gente que acha que prostituição só acontece com mulheres. Fiquei chocada com a história desse menino, dele achar que teria sucesso nesse mundo. Muito boa reportagem...tem informações ali que nem conhecia.

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  5. Morro de medo desse negócio de tráfico humano, de rapto de bebês, de gente que sequestra a outra para tirar órgão e vender no mercado negro. As pessoas acham que isso não existe, mas existe sim....não é lenda urbana.

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