O eleitor se preparou para assistir ao debate presidencial, mas recebeu uma novela, literalmente. Na reta final das eleições 2026, o debate da Globo saiu da programação, Lula ocupou o podcast Flow e a disputa ganhou as ruas de Belo Horizonte (MG).
Às vésperas da votação de 04 de outubro, o roteiro combina vantagem petista em vários levantamentos, incerteza sobre o segundo turno e uma questão que ultrapassa a matemática eleitoral: qual a resposta que o povo brasileiro dará nas urnas?
A TV Globo cancelou o debate de 1º de outubro alegando insegurança jurídica. A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a exibição do púlpito vazio de Lula e perguntas ao presidente ausente; Gilmar Mendes, do STF, determinou a participação de Renan Santos. A emissora considerou que as decisões alteravam regras acordadas.
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e Associação Nacional de Jornais (ANJ) criticaram a intervenção judicial. A controvérsia exige discutir autonomia jornalística e equilíbrio entre candidaturas.
Antes disso, Lula havia recusado o convite da TV Globo e preferiu a entrevista no podcast Flow. Flávio Bolsonaro também desistiu do debate, alegando censura do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O presidente criticou um formato que, segundo ele, favorece provocações e oferece pouco tempo para respostas.
Perguntas difíceis e confronto de propostas fazem parte da prestação de contas de quem quer governar. Entrevistas longas podem aprofundar assuntos; não reproduzem, porém, a cobrança direta dos adversários.
Se voltarmos aos arquivos históricos da mídia, notamos uma ironia que dispensa edição para as redes: a Globo não promoveu debates em 1994 e 1998, eleições vencidas por Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno. Naquelas campanhas, Lula criticava a ausência do tucano nos confrontos.
Voltando para 2026, a estratégia digital da campanha de Lula conquistou atenção: o podcast Flow chegou a 1,64 milhão de espectadores simultâneos, contra aproximadamente 535 mil na live do candidato da extrema direita.
Já o Jornal Nacional, da TV Globo, marcou 20,8 pontos na Grande São Paulo, sua pior quinta-feira em seis meses. São métricas diferentes, que não permitem declarar uma vitória do podcast sobre a televisão, mas mostram o comportamento do público em relação ao conteúdo.
Para levar essa atenção às urnas, Lula participou de uma caminhada em Belo Horizonte (MG), em 02 de outubro, com a programação atrasada pela chuva. Ao lado de Patrus Ananias, Marília Campos e Áurea Carolina, buscou mobilizar o segundo maior colégio eleitoral do país.
Minas ajuda a entender por que palanque cheio não resolve tudo: a Real Time Big Data apontou Cleitinho à frente na disputa pelo Governo de Minas, enquanto o Datafolha mostrou a corrida ao Senado Mineiro apertada entre Marília, Carlos Viana e Aécio Neves.
No cenário nacional, a Pesquisa CNT/MDA divulgada em 03 de outubro, registrou Lula com 47,8% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 42,1%. Foram 2.007 entrevistas, de 30 de setembro a 02 de outubro, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
É vantagem para Lula, mas ainda abaixo dos mais de 50% necessários para encerrar a eleição no domingo. Pesquisa não vem com faixa presidencial de brinde. Liderar o primeiro turno e vencer sem uma segunda votação são situações distintas.
A maioria dos especialistas considera o segundo turno mais provável entre Lula e Flávio Bolsonaro. Voto útil, indecisão e comparecimento podem alterar o desfecho, sem garantia de beneficiar apenas um lado. A expectativa petista de resolver a disputa no domingo (04/10) precisa conviver com os limites dos levantamentos. A possibilidade existe; a confirmação depende dos votos registrados. Afinal, a incerteza não apaga diferenças políticas decisivas.
Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe político e outros crimes, e Flávio defende indultar o pai. Esse vínculo torna legítimo cobrar do candidato um compromisso concreto com a responsabilização por ataques às instituições. No confronto entre os dois líderes, Lula representa o principal contraponto ao bolsonarismo e tem na defesa do Estado Democrático de Direito um argumento decisivo.
Essa cobrança à extrema direita exige apontar atos concretos. Prometer proteger a família enquanto se restringem direitos civis é uma contradição que merece ser exposta. Quando mulheres e pessoas LGBTQIA+ viram alvos, o discurso moralista transforma proteção em privilégio. Famílias têm diferentes composições e precisam de renda, segurança e serviços públicos. A defesa democrática exige avaliar cada candidatura por suas propostas e sua trajetória.
Assim, a Democracia exige liberdade para discordar, imprensa atuante, instituições fiscalizadas e direitos que sobrevivam à troca de governo. O eleitor merece comparar propostas sem receber medo embalado como solução.
Entre o estúdio vazio da televisão, o podcast bobando de audiência e os guarda-chuvas em carreata pelas ruas de BH, a pergunta central permanece: quem o eleitor vai eleger para representá-lo nos próximos anos? A torcida é para candidatos que, realmente, defendem o interesse do povo brasileiro. E nunca esteve tão fácil apontá-los.
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Jornalista




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