#ChicaDaSilva: ópera no Palácio das Artes revisita a anti-heroína de Diamantina além do filme e da novela
setembro 22, 2026Chica da Silva já foi rainha, escândalo, fantasia e sucesso de audiência. Com tantas versões disputando seu nome, dava até para pedir direito de resposta. A ópera inédita desta anti-heroína mineira, encomendada pela Fundação Clóvis Salgado, propõe aproximar o público da mulher sob o mito. Uma história mineira que continua revelando muito sobre o Brasil.
Com récitas em 19, 21 e 23 de setembro de 2026, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG), a montagem tem música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone. A soprano Marly Montoni interpreta a protagonista, e o tenor Ewandro Stenzowski vive João Fernandes, contratador de diamantes com quem Chica viveu uma relação de amor, afeto, riqueza e desigualdade. Para comprar o ingresso, clique aqui.
A superprodução reúne Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Cia de Dança Palácio das Artes, os três corpos artísticos da Fundação. Julianna Santos assina a direção cênica, André Brant, a direção musical e regência, e Regina Advento, a coreografia. Figurinos de William Rausch, cenários de André Cortez e iluminação de Wagner Pinto completam a equipe.
Não tem como falar da história do Brasil sem falar de Chica da Silva. O cinema ajudou a construir essa memória. Em “Xica da Silva” (1976), Cacá Diegues fez da personagem de Zezé Motta uma presença capaz de desorganizar as hierarquias coloniais pelo desejo e pela irreverência.
Ao lado de Walmor Chagas, a atriz marcou a cultura brasileira. O filme merece reconhecimento por seu protagonismo negro, mas cabe discutir quanto dessa liberdade ficou condicionada à imagem da mulher sexualmente irresistível.
Vinte anos depois, a novela “Xica da Silva”, de Walcyr Carrasco, levou Taís Araújo ao centro dessa memória. Exibido pela extinta TV Manchete, em 1996, o folhetim ampliou a presença de uma protagonista negra na televisão, com romance, intrigas e vinganças. Um acontecimento relevante em um meio que tantas vezes reservou às atrizes negras papéis subalternos. O melodrama, porém, também ajudou a embaralhar personagem histórica e invenção.
Seria injusto esquecer essas duas Xicas para conhecer a nova Chica da Silva. Zezé e Taís fazem parte da conversa. O paralelo está no que cada linguagem escolhe iluminar: o cinema explora a provocação; a novela prolonga os conflitos; a ópera pode dar tempo e intensidade aos dilemas íntimos. Mudar o figurino e colocar uma orquestra no fosso, por si só, não desfaz um estereótipo, mas nos propõe a repensar como a narrativa pode interferir ao contar uma história.
Entre os historiadores, há um impasse na forma como a história dessa mulher tão imponente é contada. No livro, “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes: o outro lado do mito”, publicado em 2003, por Júnia Ferreira Furtado, conhecemos um outro lado da história. A pesquisadora questiona a redução de Chica à sedutora e investiga as estratégias de inserção social de uma mulher negra liberta em uma sociedade escravocrata.
Ainda assim, não cabe a arte querer ter a régua rígida da história documental. É preciso lembrar que a ópera é criação artística: música, texto e encenação interpretam o passado, dentro de uma linguagem carcaterística. O palco pode formular boas perguntas; certidão de verdade absoluta é outra história.
Nascida escravizada, Francisca da Silva de Oliveira foi alforriada em 1753 e alcançou prestígio no Tijuco, atual Diamantina. Teve 13 filhos com João Fernandes e investiu na posição social da família. Também possuiu pessoas escravizadas. Essa contradição impede uma celebração confortável: sua ascensão ocorreu dentro da ordem escravista. Reconhecer sua capacidade de agir exige olhar para as violências que sofreu e os privilégios dos quais passou a participar.
Por isso, o romance exige cuidado. A relação entre Chica e João Fernandes nasceu de uma estrutura em que ele podia comprá-la e conceder-lhe a liberdade. O afeto não apaga essa assimetria. Cabe perguntar quanto espaço a protagonista tem para desejar, decidir e se contradizer. Reduzi-la à mulher amada por um homem poderoso preservaria, com acompanhamento sinfônico, uma velha dependência narrativa.
Na ópera, a montagem de Chica da Silva incorpora referências ao congado, à capoeira e aos adinkras, símbolos de povos da África Ocidental. Essa escolha aproxima a linguagem lírica da presença africana na formação mineira. Seu potencial está em fazer dessa herança parte da construção da história. Uma perspectiva relevante ao revisitar uma personagem tantas vezes filtrada por fantasias sobre o corpo da mulher negra.
Transformar a vida desta personagem histórica em ópera amplia as histórias que recebem investimento, elaboração artística e espaço nos grandes palcos. Chica já tinha importância antes de ganhar uma partitura. A encomenda da Fundação reconhece que a memória brasileira sustenta dramas de grande escala e pode aproximar novos públicos do gênero. Representatividade ganha densidade quando inclui inteligência, desejo, ambição e contradição.
O interesse dessa Chica da Silva está na possibilidade de sairmos do teatro menos satisfeitos com respostas prontas e mais reflexivos sobre como essa história foi retratada ao longo do tempo. Entre filme, novela e ópera, permanece a disputa sobre quem pode contar essa vida e quais aspectos merecem ser ouvidos. O convite ao público é revisitar suas certezas. Afinal, depois de séculos sendo explicada pelos outros, Chica merece mais do que outra legenda debaixo do retrato. Merece ser enaltecida e descoberta por uma nova geração.
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Jornalista




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