#Crônica: Coisas da história da abolição no Brasil e da nossa liberdade

novembro 06, 2012



Quando estava na época de escola, uma das minhas matérias preferidas era a disciplina de História. Tive a sorte de ter ótimos professores. Do ensino fundamental ao médio – e até mesmo em algumas matérias da faculdade de jornalismo, todos os professores sempre incentivavam os alunos a ver o conteúdo histórico pelo lado crítico e reflexivo. 

Um dos temas que me desperta atenção é o Brasil pós-abolição da escravatura e início da República, período este que está sendo retratado na novela das seis da Rede Globo, Lado a Lado.

Sempre me irritou profundamente alguns livros de história tratarem a abolição da escravatura como algo casual, simples e que culminou na “felicidade geral” da nação. Não foi bem assim. O negro liberto não tinha para aonde ir depois da abolição. 

Muitos eram analfabetos e nem tinham acesso a escola. Importaram a “preço de banana” a mão de obra imigrante européia, mas não colocaram os negros para o trabalho. 

Foram poucos os empresários e agricultores da época que fizeram isso. A grande maioria optou pelo setor de prestação de serviço, o comércio, o trabalho doméstico, a construção civil, o trabalho braçal.

Em compensação, os negros não foram tão submissos como alguns livros de história tentam mostrar. Houve revoltas, motins, brigas e a criação de vários quilombos espalhados pelo Brasil. O dialeto e a língua africana de cada povo de origem africana foram proibidos pelos Senhores, mas alguns grupos resistiram bravamente. 

Tanto que algumas palavras foram incorporadas a língua portuguesa falada no Brasil como pipoca, pamonha, rapadura, cachimbo, caçula, cafuné, bagunça, xingar, fubá, inhame, cachaça, moleque, tanga, quitute, entre outros.

A capoeira que hoje é uma dança/luta tradicional do nosso país era proibida, coisa de gente vadia e de bandido. O candomblé e a umbanda eram mal vistos, e até hoje são pouco respeitados como religião e doutrina. 

O tambor, o batuque, o lundu, o bangulê, a umbigada, o samba – ritmos de origem africana, também eram subestimado e marginalizado, sendo que tudo isso influenciou [e influencia] a nossa cultura brasileira. 

Ou seja, mesmo com uma cultura tão rica e vasta, era incutido ao negro que a única cultura possível era aquela que seguia o padrão europeu. Quer mais escravidão do que isso?

Muita gente não entende essa dívida histórica que o Brasil tem com as etnias – tanto a africana, quanto à indígena. E na mídia, há pouco debate ou espaço para falar deste assunto que é latente e influenciou de modo significativo a nossa sociedade e a luta por liberdade, igualdade e respeito aqui nos trópicos.

Voltando a falar do episódio da abolição, acredito esse que seja o período mais marcante da nossa história, pois ele pontua até hoje a ausência do Estado na questão de inclusão e de acesso a cultura e a cidadania. 

Com o fim da escravatura, muitos negros foram para as ruas, para os cortiços e para os morros. Eles viviam à margem da sociedade. Alguns continuaram trabalhando para os seus antigos senhores por comida e teto, o que representa de certo modo a escravidão.

E isso é tão enraizado na nossa cultura que até hoje – em pleno século XXI,  que alguns ranços do período da escravidão permanecem. Quem nunca ouviu falar de uma família de posse que acolheu uma criança menos abastada e a colocou para trabalhar como empregado doméstico, misturando o vínculo afetivo com o trabalhista? 

Por incrível que pareça, isso ainda existe e é um hábito brasileiro, onde o trabalhador doméstico tem a pressão moral e afetiva de ficar 24h por conta do patrão. Não se trata de ser politicamente correto. A inclusão social é mais do que declarar a liberdade dos escravos por conta de pressões econômicas. A abolição definiu o Brasil que somos e o país que temos hoje. Pouca gente já se deu conta disso.

As primeiras gerações de negros libertos sofriam muito preconceito. Para eles ainda era abnegado o estudo, o entendimento dos seus deveres e direitos como cidadão. A liberdade cultural e o acesso a cidadania foi algo que foi dado aos poucos, mesmo assim ainda com muito preconceito e violência moral. Até hoje, o negro quando chega ao mercado de trabalho ou em um banco da faculdade sofre discriminação ou é tratado com desdém.

Acontece que o preconceito racial no Brasil não está ligado apenas à cor de pele, mas sobretudo à condição social. No senso comum, o negro pobre, favelado não tem acesso à cultura. Não tinha. Agora, às duras penas, tem. Não defendo que a cota para a entrada na Universidade seja eterna, mas por ora ela ainda é necessária. 

O negro que mora no subúrbio, na favela ou nas áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos raramente tem acesso a mesma oferta de qualidade educacional que um branco que mora na zona sul e sempre estudou nas melhores escolas possui.

Claro, nem sempre o fato de ter passado por escolas boas [ou ruins] define a qualidade e a força de vontade do aluno. Se o universitário será um bom ou mal profissional dependente não só da escola, mas sobretudo do próprio aluno. Dele correr atrás da sua defasagem [se ela houver] e fazer do “limão uma limonada”.

Hoje de manhã, ao ler um artigo no site da Folha de S. Paulo, esse tema me tocou profundamente. Tive vontade de contribuir para o debate. Dentro dessa onda de reflexão, me lembrei do capítulo desta segunda-feira (05/11), da novela Lado a Lado, um diálogo entre as amigas [protagonistas] Isabel e Laura, que me marcou e pontua esse preconceito que vive as chamadas “minorias”– sejam os negros, as mulheres, os homossexuais, os artistas de vanguarda, etc. O estigma de ser julgado pela sua aparência física e não por quem você é.

Na cena em questão, Isabel tenta convencer a amiga Laura a não se divorciar. “Você tem ideia do que é viver com preconceito? Eu vivi e vivo a minha vida toda sendo julgada pelas pessoas apenas por ser assim. Ninguém quer saber se eu estudei, se tenho boas ações, se sou uma mulher de respeito, se ajudo os mais necessitados. Não. Todos te apontam na rua. Uma mulher divorciada vai viver isso tudo e perde o respeito. Você quer isso para você?”

Laura entende a ponderação da amiga, mas diz algo que nos vale reflexão. “Eu nunca passei por preconceito. Não sei o que é isso. Mas em compensação sempre vivi numa gaiola de ouro, lutando pela minha liberdade. Preciso fazer o que eu sinto para ficar bem comigo mesma”.

A conversa prossegue. Isabel entende a amiga. Ela, uma mulher negra, trabalhadora e com boa educação dada graças a generosidade da sua ex-patroa que a criou desde os 14 anos, sabe o quanto as nossas escolhas podem tornar o caminho mais difícil. Isabel perdeu o bebê que esperava fruto de um rápido relacionamento com um rapazola de família rica, que por sinal era o irmão de Laura. 

A jovem negra resolveu trilhar o caminho da produção independente, ser mãe solteira. Sofreu muito. Perdeu o noivo duas vezes. Foi apontada na rua como uma criminosa. Custou a arranjar um outro trabalho. Viveu dias difíceis, mas teve coragem e a ajuda de poucos amigos. Coragem essa que Laura certamente terá para trilhar a sua felicidade.

O exemplo da novela é pontual, e não é a toa. Todos nós lutamos pela nossa liberdade. Lutamos pela possibilidade de nos definirmos a partir das nossas escolhas. Lutamos para não sermos pré-julgados, para sermos respeitados. Alguns vivem essa luta de forma intensa. 

Outros vivem de forma esporádica. Ou ainda, nem viveram. Mas só pelo fato de não ter vivido isso não quer dizer que essa luta pela liberdade não exista. Existe sim. E é mais contemporânea do que se pensa. Liberdade ainda que tardia. Antes que seja tarde demais.







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Jornalista

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4 comentários

  1. Gostei! Essa palavras são sábias! O racismo ainda é latente no nosso país. Uma prova disso foi quando Lázaro Ramos e Taís Araújo foram rejeitados pelo público quando foram personagens principais da novela das nove. Uma contradição, visto que o negro é maioria no país!

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  2. Francisco Bertoletta6 de nov de 2012 20:33:00

    Wander, parabéns pelo artigo/crônica. É uma aula de história e de reflexão social que você propôs neste texto. Ele merece ser compartilhado. Grande abraço

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  3. Nossa, esse texto mexeu muito comigo. Toca na ferida e mostra que o Brasil precisa conhecer o Brasil, como canta a nossa eterna Elis Regina. Parabéns mesmo...precisamos combater o preconceito com conhecimento, de cabeça aberta e com respeito.

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  4. Caro amigo, que preciosidade esse texto. Nada tenho a acrescentar além da frase da querida Nilma Lino " O que nos faz semelhantes ou mais humanos são as diferenças". Que mais dizer de um texto tão completo, tão restaurador da imagem do negro num país que insiste em esquecer a sua História? Por certo nós negros temos motivos de sobra para desejar e conquistar cada vez mais os espaços sociais que por tantos anos nos foi negado. Podemos no entanto fazê-lo com a mesma força que empreendemos na construção da economia desta nação. Somos fortes. Somos negros.
    Essa crônica é uma bela homenagem ao negro nas proximidades do 20 de novembro verdadeiro dia da abolição.

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