A casa é sua
Clodovil Hernandes - ícone que fez história na moda, televisão e política
março 18, 2009
"Digo aos senhores que a única coisa de que tenho medo: já me fizeram muito medo aqui, como estrangeiro que sou nesta Casa, é da expressão 'decoro parlamentar'. Eu não sei o que é decoro, com um barulho destes enquanto um deputado fala. Eu não sei o que é decoro, porque aqui parece um mercado! Nós representamos o país! Não entendo por que há tanto barulho enquanto um orador está falando. Nem na televisão, que é popular, fazem isso." Primeiro discurso na Câmara dos Deputados, em 2007.
Ícone da TV brasileira: apresentador, estilista e deputado federal. Morre, aos 71 anos, Clodovil Hernandes, vítima de AVC e parada cardiorrespiratória. Sinceramente, a TV brasileira só de tê-lo afastado há algum tempo, já sofria da sua ausência. Agora, apenas a memória, críticas e o bom gosto dele se fazem presente. Não há como não lamantar a morte desse importante artista que, por não medir as suas palavras, ganhou notoriedade, respeito e o carinho do público. Uma trajetória política intensa, que começou em 2006, em meio há várias polêmica. A frase que ilustra o início deste post reforça a intenção dele de ir à Brasília para tentar mudar um pouco a política, mesmo que seja uma voz isolada, mas não calada.
Clodovil fez projetos de leis interessantes sobre a postura da sociedade - que infelizmente ainda não foram votados, mas que precisam ser discutidos na sociedade. Em homenagem ao falecido deputado Clodovil Hernandes (PR-SP), a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, aprovou nesta manhã (18/03), um parecer favorável relativo ao projeto de Lei, idealizado por ele, que autoriza enteados adotarem o sobrenome de seus padastros. A matéria já foi aprovada na Câmara dos Deputados e depende agora de uma votação no plenário do Senado para se transformar em Lei. A relatora da matéria, a senadora Serys Slhessarenko (PT-MT), pediu agilidade na apreciação do projeto e, junto de outros senadores, como uma forma de homenagear a figura póstuma de Clodovil. Para quem quiser saber um pouco mais sobre o trabalho dele como deputado federal, clique aqui e acesse o blog do deputado.
Tudo bem: amados por uns, odiado por outros. A polêmica sempre fez parte da vida de Clodovil. Ele brigou com vários artistas, políticos e celebridades. Também fez amizades e foi um dos poucos comunicadores que se propôs a fazer uma TV de qualidade. Quem não se lembra do extinto vespertino "A Casa é Sua", entre 2003 e 2004, sob o comando de Clodovil Hernandes. De longe - e sem falsa modéstia, a Rede TV!, nos seus quase dez anos de existência, não teve até hoje um programa com a mesma qualidade editorial e de produção.
Para quem não se lembra - ou não teve oportunidade de assitir, o "A Casa é Sua" vinha de uma linha que explorava à exaustão a fofoca e a leitura de revistas do mesmo gênero, durante mais de quatro horas seguidas. O programa foi apresentado anteriomente por Sônia Abrão e Leonor Corrêa. Com a entrada de Clodovil à frente da atração ele redesenhou todo o programa e o transformou na sua casa, literalmente. Criou quadros e, praticamente, fez a atração ressurgir das cinzas. Clodovil, ao lado da empregada Ofrásia, faziam esquetes improvisadas, divertidas e até irônicas. E era com a empregada, com o quadro "Fuxico na Cozinha", que a fofoca tinha um breve espaço no programa.
Outro quadro muito querido pelos telespectadores era os seus editoriais, no início do programa: sempre muito polêmico com temas atuais ou que comentava assuntos da área cultural, principalmente de música, teatro ou cinema. A "Hora das Flores", outro quadro de bastante sucesso do programa, era um momento em que ele criava um arranjo de flores, sempre com plantas diferentes, para presentear uma personalidade. Era nesse quadro que Clodovil fazia um arranjo sempre ouvindo uma boa seleção musical - e o mais interessante era que o quadro dava a oportunidade de resgatar gêneros musicais ou artistas até então esquecidos do grande público.
E por falar em música, era o som instrumental da "Aquarela do Brasil", que Clodovil iniciava o programa para todo Brasil. Era o momento da frescura, como ele mesmo dizia. Dançava com as mãos imitando o gesto clássico de Carmem Miranda e saudava o Brasil - terra tão querida que precisa ser mais valorizada pelos próprios habitantes. Era nessa parte do programa que Clodovil interagia também com a jornalista Joana Matushita para ler e-mails dos telespectadores ou para apresentar as últimas notícias, de um modo geral. Ao lembrar do programa de Clodovil, se compararmos com as atrações que temos hoje na TV aberta, vemos o quanto a falta de produção e de qualidade reina na televisão. Os programas vespertinos atuais promovem a imbecilização do público e da polemização de tragédias que nada acrescentam na nossa vida.
Na época em que o programa do Clodovil passava eu era estudante de jornalismo. Não assistia o programa por causa do estágio, mas sempre quando podia ou era feriado eu dedicava algumas horas para assistí-lo. Na verdade, não era nem assistir. Como sou um inveterado fã de produção de conteúdo para mídia eletrônica, assistia o programa fazendo anotações, como até hoje faço com os programas que possuem bom acabamento editorial.
Assistir o Clodovil na TV era aprender, mesmo que de longe, um pouco de produção e apresentação de programa ao vivo. E, acima de tudo, que se é possível fazer uma TV aberta comercial respeitando a inteligência do público, sem perder o bom gosto - coisa rara, atualmente. A briga pela audiência deixou os produtores de conteúdo loucos por números no Ibope, e não por telespectadores. As emissoras de TV, principalmente no horário vespertino, não oferecem conteúdo, só inutilidades. E se tem algo que precisa ser martelado, aproveitando a deixa da morte de Clodovil, é justamente isso: aonde está a qualidade da televisão?
Perdemos um ícone que lutou, até o seus últimos dias na frente de um programa, por respeito ao telespectador e por valorizar a audiência dele ao máximo. A ida de Clodovil deixa um vazio. Perdemos alguém que estava disposto a alfinetar e para falar no ar o que os comunicadores sabem, mas tem medo de dizer. Alguns vão dizer que Clodovil não era "flor que se cheire". E quem não é? O próprio assumia que não era santo. Uma das suas frases mais famosas explicava muito bem isso: "Clodovil: Clô para os íntimos, Vil para os inimigos e Dô para que eu quero". Polêmico em suas declarações, mas transparente para dizer o que sentia. Ninguém é obrigado a gostar de niguém, mas no mínimo deve-se respeito. E não respeitar o legado dele é tolice.
Quando se chega em uma certa idade em que a experiência e a vivência falam mais alto, a franqueza de pensamentos se sobressai. Quem tem parentes mais velhos na família sabe que os idosos falam o que pensam e possui uma sabedoria que não está no livro ou na escola. É assim que eu via Clodovil: um homem que via um monte de coisas erradas, um mundo cheio de valores trocados e que ficava "puto" com tudo isso. Lógico: ele tinha seus defeitos. Era humano e uma pessoa, aparentemente, difícil de se conviver porque exigia dos outros a mesma qualidade que exigia para si. Errado ou certo era a verdade que ele acreditava.
Clodovil durante toda vida lutou pela sua verdade. Falou o que pensava. Comprou brigas e se quisesse trilhar um caminho mais "fácil", poderia ter feito diversas vezes o "jogo do contente". Mas ele preferiu ser ele mesmo e fez a diferença. E pelo fato do Café com Notícias ser um espaço para falar de comunicação, o blog presta as suas últimas homenagem ao comunicador Clodovil Hernandes que fez da arte e da oratória o seus sustento e meio de vida. Adeus, Clô! Você vai deixar saudades.
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Wander Veroni
Jornalista
