#DonaBeja: Novela da HBO Max mostra a história da mulher injustiçada que virou símbolo de poder

fevereiro 18, 2026


A história de Ana Jacinta de São José, imortalizada como Dona Beja, transcende o tempo e as telas para se consolidar como um dos mitos mais potentes da história mineira e, porque não dizer, da formação social brasileira. 

A nova produção da HBO Max, lançada em 2026, não se propõe a ser um simples remake da obra clássica da TV Manchete de 1986, mas sim uma releitura corajosa que tenciona as feridas abertas de um país que ainda luta para conciliar seu passado colonial com as urgências contemporâneas. Abaixo, confira o trailer da novela:
 

Ao mergulhar na trajetória dessa mulher que transformou o trauma do rapto e o estigma social em uma ferramenta de poder político e financeiro, a novela do streaming estabelece um diálogo crítico sobre a posse dos corpos, a autonomia feminina e as estruturas de opressão que definem o Brasil desde o século XIX.

A comparação entre a versão de 1986 e a atual revela muito sobre como a percepção social mudou em quatro décadas. Na TV Manchete, a Dona Beja de Maitê Proença era envolta em uma aura de exotismo e sensualidade muitas vezes voltada ao olhar masculino, onde a nudez artística servia como o principal chamariz de audiência. 

Na releitura da HBO Max, a Dona Beja de Grazi Massafera é apresentada sob uma ótica de estratégia e sobrevivência. A nudez aqui deixa de ser objeto de contemplação passiva para se tornar um ato de rebeldia e domínio de narrativa.  Enquanto a novela original se estendia por quase noventa capítulos com núcleos secundários melodramáticos, a versão atual utiliza a agilidade do streaming para condensar a trama em quarenta episódios focados na tensão psicológica e no jogo de xadrez político que Beja opera na Chácara do Jatobá

A modernização técnica também se faz presente na fotografia e na prosódia, que buscam um realismo mais cru, abandonando o tom poético e bucólico da década de oitenta para abraçar uma crônica mais ácida sobre a hipocrisia das elites de Araxá.

Um dos diferenciais mais profundos da nova produção é a correção de anacronismos históricos por meio de um elenco diverso e personagens que ocupam lugares de altividade. A figura de Antônio Sampaio, interpretada por David Junior, é o maior exemplo dessa mudança. Ao contrário da versão anterior, Antônio é um homem negro livre, instruído e com ambições políticas reais. 

Sua presença em cena desmistifica a ideia de que a população negra no Brasil Imperial era composta apenas por pessoas escravizadas, trazendo à tona a existência de uma classe intelectual negra que lutava por espaço em uma sociedade estruturalmente racista. Outro ponto de ruptura fundamental é a personagem Severina, vivida por Maitê Schneider

Ao retratar Severina como uma mulher trans que se torna a administradora estratégica da Chácara do Jatobá, a HBO Max insere uma camada de diversidade de gênero que dialoga diretamente com as lutas atuais. Severina e Beja formam uma aliança baseada na sororidade e na proteção mútua, transformando aquele espaço em um território de resistência para todos aqueles que a moralidade conservadora da época tentava apagar. Esses personagens não estão na trama para serem apenas vítimas, mas para exercerem agência e questionarem as estruturas de poder.

Arquétipo e a mística da Pombagira

Ao analisarmos a trajetória real de Ana Jacinta sob uma perspectiva sociológica e histórica, torna-se quase inevitável o paralelo com o arquétipo da Pombagira nas religiões de matriz afro-brasileira, como a Umbanda e o Candomblé. Beja encarna a essência dessa entidade ao ser a mulher que conhece as dores do mundo, que foi humilhada e subjugada, mas que retorna das sombras para rir da face dos seus opressores, sem esquecer da importância de se fazer justiça. 

A história de Dona Beja é a crônica de uma transmutação: o desejo que antes era usado para aprisioná-la torna-se a chave de sua libertação e riqueza. Na Umbanda e no Candomblé, por exemplo, a Pombagira é a guardiã da liberdade e a senhora dos desejos, atuando como uma força que não se curva aos padrões patriarcais. Assim como Beja lutou pelos diferentes e acolheu os marginalizados em sua chácara, a energia dessa falange trabalha na quebra de preconceitos e na proteção dos injustiçados. 

Portanto, ver Dona Beja como um sinônimo de resistência é reconhecer que sua força não vinha apenas do ouro que acumulou, mas da coragem de ser livre em um tempo que exigia submissão. Sua história permanece viva porque representa a vitória da autonomia sobre o julgamento alheio, consolidando-se como um símbolo de poder feminino e justiça social.




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Jornalista

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