Café Literário – Daniela Arbex fala sobre o livro Holocausto Brasileiro

julho 11, 2013


Bem-vindo ao Café Literário, a sua dose semanal de literatura! Nesta temporada, a seção está sob os cuidados do escritor em formação, apaixonado por literatura e autor do blog Escriba Encapuzado, Tiago K. Pereira*, novo colunista do blog @cafecnoticias. Semanalmente, você irá conferir por aqui novidades do mundo literário, entrevistas, resenhas e, até mesmo, sorteio de livros. Acompanhe:


Saudações, querido leitor. No último sábado (06/07), ocorreu em Belo Horizonte o lançamento de Holocausto Brasileiro, livro-reportagem da jornalista Daniela Arbex que já foi indicado aqui no Café Literário. Para comprar o livro, clique aqui.

Sucesso de público, o evento aconteceu no Café com Letras, na Savassi, e contou com a presença de personagens do livro, como o escritor e psiquiatra Ronaldo Simões, o cineasta Helvécio Ratton, o jornalista Hiram Firmino, e João Bosco, ex-paciente do Hospital Colônia.
Helvécio Ratton ao lado de Daniela Arbex no lançamento do livro em BH. Foto: Divulgação.
  
Daniela Arbex é uma jornalista consciente da importância de sua profissão. Formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade natal onde reside com o marido e o filho de dois anos, Daniela construiu, com muita luta, uma carreira de sucesso.

Nos primeiros anos a serviço da Tribuna de Minas, jornal para o qual trabalha como repórter há 18 anos, conquistou, por cinco vezes seguidas, o Prêmio Eloísio Furtado de melhor reportagem (de 1996 a 2000). Hoje conta com mais de 20 premiações, nacionais e internacionais, como o Knight International Journalism Award e o Ipys de Melhor Investigação Jornalística da América Latina.

Daniela também foi agraciada por três vezes com o Prêmio Esso por trabalhos em defesa dos direitos humanos: em 2000, pelo Dossiê Santa Casa; em 2002 por Cova 312, sobre o guerrilheiro Milton Soares, desaparecido durante a Ditadura Militar brasileira; e em 2012 por Holocausto Brasileiro, série de reportagens sobre o Hospital Psiquiátrico Colônia, em Barbacena (MG), que este ano é lançada em livro pela Geração EditorialConfira a seguir a entrevista exclusiva que Daniela concedeu ao Café com Notícias:

1. Seu histórico de premiações revela um interesse por matérias de cunho social e de defesa dos direitos humanos. Por que essa predileção por temas densos como esses?

Minha carreira sempre foi pautada pela defesa dos direitos humanos. Não consigo me indignar com certas situações e só fechar os olhos, por isso até hoje procuro transformar indignação em ação. Esse é o papel do jornalista. Quando se perde tal capacidade de indignar-se, deixa-se de ser jornalista. 

Minha formação humana também contribuiu pra isso: faço trabalhos voluntários em uma comunidade espírita de Juiz de Fora; cresci vendo crianças abandonadas pelos pais ou vivendo em condições de pobreza e isso me comovia. 

Meu olhar foi sendo moldado por essas experiências. Na faculdade, a primeira matéria que escrevi defendia alunos vítimas de bullying de professores. Tornar-me porta-voz das vítimas invisíveis da violência foi um caminho natural. É um tipo de jornalismo doloroso, mas gratificante quando se consegue dar visibilidade a essas pessoas.

2. Você tomou conhecimento do Hospital Colônia em 2009, durante uma entrevista com o vereador e psiquiatra José Laerte, de Juiz de Fora. Contudo, a sua série só foi publicada na Tribuna de Minas em 2011, pois nesse espaço de dois anos o jornal não pôde dispor de seu trabalho como repórter especial. Como é ter pautas importantes como essas adiadas ou até mesmo rejeitadas por assuntos mais imediatistas?

Desesperador. Mas eu nunca desisti de uma pauta. Em 2011, no quinquagésimo aniversário das imagens do Luiz Alfredo, insisti pela terceira vez com o jornal e a série de reportagens foi produzida. O momento foi ótimo. 

O jornalista não pode desistir, não se realmente acredita na pauta, naquilo que tem a oferecer ao meio. Da mesma forma, ele não pode abandonar uma pauta depois de publicada. 

Eu nunca deixo de acompanhar as repercussões daquilo sobre o que escrevi. Você entra na vida das pessoas, elas entram na sua, e não é possível apenas virar a página, não dá.

3. Supondo que o jornal não tivesse como a liberar, você cogitaria fazer essa reportagem de maneira independente, talvez buscando financiamentos coletivos pela Internet, como cada vez mais jornalistas têm feito?

Sim. Quando decidi produzir o livro, não contei com financiamentos e banquei todos os gastos, pois acreditava no trabalho. Eu estava certa de que o Brasil precisava conhecer uma de suas piores tragédias. Havia o projeto e eu o viabilizaria de qualquer jeito. A editora só me contatou e comprou a ideia quando o texto já estava quase finalizado.

4. Qual é sua opinião sobre o jornalismo independente? 

Considero um ato de extrema coragem de quem não se acomodou e optou por não esperar as coisas acontecerem. Jornalismo de verdade é isso: partir em busca do que se acredita. Sempre fiz isso. Quando o jornal, por alguma razão, não percebia a importância de uma pauta, eu fazia o possível para mostrá-la, levasse o tempo que fosse. A Tribuna sempre abraçou muitas causas minhas que acabaram se tornando causas do jornal também.

5. Qual foi o papel dos governos estadual e municipal na produção da série de reportagens e do livro “Holocausto Brasileiro”? Houve apoio ou empecilhos?

Nem apoio, nem empecilho. Não há como negar a essência desse Holocausto; a quantidade de mortos, as fotografias produzidas, as memórias do que ocorreu são irrefutáveis. 

Publicado em 2008 pelo Governo de Minas o livro Colônia (Tragédia Silenciosa) foi um reconhecimento da própria omissão do estado. Não sei como eles estão encarando o livro, mas não sofri nenhum tipo de intimidação, nem tentativas de censura. Afinal, não há como bater de frente com isso.

6. Quais foram as diferenças e dificuldades do processo de criação da reportagem e do livro?

Para a série, fiz uma longa pesquisa no arquivo público mineiro, tive acesso a documentos do hospital – inclusive a alguns considerados sigilosos, após algumas negociações com a direção e colhi depoimentos dos próprios personagens desse drama, os médicos, os sobreviventes.

Quanto ao livro, este não aproveitou nem 10% do material da série. Foi preciso refazer todo o processo de investigação, entrevistei novos e velhos personagens, viajei muito. A linguagem do livro é diferente, requer um tipo de pesquisa diferente. Mas meu método de apuração, que é bem rigoroso, não mudou.

Agora, escrever um livro é muito diferente de escrever reportagens. Fiquei dois meses olhando para o computador, sem saber bem como começar, mas depois as palavras começaram a fluir e deu tudo certo.

7. Holocausto Brasileiro é seu primeiro livro. Qual são os sentimentos por estrear nesse novo meio tratando de um tema tão denso?

Minha maior expectativa era como as pessoas receberiam o livro porque não estou acostumada a ser lida nacionalmente. Escrevo para um jornal regional e meu trabalho é mais conhecido por pessoas do meio jornalístico. 

Mas eu sabia que o livro extrapolaria para outros ramos, outras especialidades, como tem acontecido. O conteúdo do livro tem impactado as pessoas e gerado reflexões, o que é excelente. Trata-se de uma história universal, a nossa história, a história do nosso país. Ela deve ser conhecida e isso está acontecendo.

8. Além da conscientização sobre esta mácula na história brasileira, que frutos espera colher com a produção do livro?

Tenho escutado muito que meu trabalho está trazendo fôlego novo para a manutenção da luta antimanicomial e isso é muito positivo. Esse é o papel do livro, é o que desejo para ele: que as pessoas conheçam nossa história, que possam transformar-se a partir de sua leitura.

9. Sua série de reportagens está disponível on-line no site da Tribuna de Minas; o que o livro acrescenta para aqueles que já acompanharam seu trabalho no jornal?

O livro apresenta muitos outros personagens e detalha as histórias daqueles que foram citados nas reportagens. Também aborda casos que não vieram a público por questões de espaço, traz novos documentos e imagens – há mais de 70 fotografias de Luiz Alfredo. O livro é muito mais rico e, com certeza, merece ser lido.

10. Como você, Hiram Firmino, repórter que trabalhou para o Estado de Minas, lançou um livro com uma série de reportagens sobre o hospício, "Nos Porões da Loucura", em 1979, pelo qual recebeu o Prêmio Esso no ano seguinte. O que diferencia esse seu trabalho do dele?

Em seu livro, o Hiram escreve sobre o Colônia e outros hospitais psiquiátricos de Minas Gerais. Mas o diferencial é outro. Até hoje a história havia sido compartilhada pela visão do jornalista; em Holocausto Brasileiro a história é compartilhada pela visão dos sobreviventes. Aí reside o ineditismos da obra.

11. O Colônia foi denunciado várias vezes no passado. Em 1961, foram as fotos de Luiz Alfredo; em 1979, o documentário “Em nome da razão” de Helvécio Ratton, a série de reportagens de Hiram Firmino, e o depoimento do psiquiatra italiano Franco Basaglia deram visibilidade à tragédia, inclusive internacionalmente. Todas essas e outras ações provocaram indignação, mudanças, reformas na assistência psiquiátrica no Brasil. Ainda assim, a história do Hospital Colônia não é muito conhecida hoje em dia, como você mesma frisa em seu trabalho. Você não teme que o mesmo aconteça com seu livro, que o tema acabe caindo no esquecimento mais uma vez?

Não creio. O conteúdo é contundente, não tem como esquecer, não desta vez. As denúncias anteriores foram muito pontuais, datadas; foram importantíssimas, claro, mas os tempos e as notícias mudaram e o assunto ficou adormecido. 

O livro é um meio diferente do jornal e acho que este veio para eternizar a história, pois ele toca na ferida. Assim como o documentário do Helvécio Ratton, que foi produzido há 30 anos e continua atualíssimo, acredito que o livro terá trajetória semelhante.

Escrevi Holocausto Brasileiro também para que meu filho, ainda pequeno, possa conhecer a história quando ele estiver com 20 anos, e depois os filhos dele, e os filhos destes. Espero que aconteça.






*Perfil: Tiago K. Pereira é escritor de coração e servidor público por necessidade. Aficionado por letras, livros e curiosidades do mundo nerd, Tiago busca realizar seu sonho de se tornar um escritor profissional. Entre rascunhos de histórias e telas de programação, ele se aproxima do mundo da literatura escrevendo no Escriba Encapuzado e para a seção Café Literário do blog Café com Notícias.





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7 comentários

  1. Francisco Bertoletta11 de jul de 2013 22:02:00

    Primeiramente parabéns ao Tiago por sempre trazer ótimos assuntos para a coluna. E parabéns a Daniela pela trabalho tão sensível e útil para a nossa sociedade. Com toda certeza, vou comprar esse livro. Abraços

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    1. Feliz por ter o trabalho reconhecido, Francisco.
      Valeu mesmo. ;)

      Abraço,
      Tiago K. Pereira – Escriba Encapuzado

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  2. Minha professora falou desse livro hoje na faculdade. Fui pesquisar no Google e cheguei aqui. Adorei o blog e a entrevista com a autora.

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    1. Espero que se torne uma leitora regular do Café Literário, Isis. ;)

      Abraço,
      Tiago K. Pereira – Escriba Encapuzado

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  3. Édson Moreira Filho11 de jul de 2013 22:22:00

    Acho muito bacana esse lado do jornalismo de transformar uma reportagem em livro. Com certeza, quem ganha mais com isso é o público que pode ter acesso a algo mais aprofundado que nem sempre a gente vê nos noticiários.

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    1. Se gostou da indicação, Édson, que tal dar uma espiada no livro "Algemadas - Algemadas - A trajetória de mães que adoeceram com a dependência química dos filhos" que estamos sorteando aqui no Café Literário.

      Confira aqui, ó:
      http://cafecomnoticias.blogspot.com.br/2013/07/cafe-literario-sorteio-de-livro-jk.html#.UeliJkpIUbZ


      Abraço,
      Tiago K. Pereira – Escriba Encapuzado

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  4. Ei Wander, gostei demais da entrevista. Fiquei ainda com mais vontade de ler o livro, em especial por conta do assunto e da seriedade da abordagem do tema. Parabéns.

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