#ReportagemEspecial: BH canaliza cursos d’água em nome da urbanização

março 22, 2013

Foto: Priscila Rejane / Flickr / Reprodução.


Água. Bem precioso e líquido fundamental para a vida. Mas, em Belo Horizonte (BH), a água que é tão necessária para o abastecimento urbano, tem se tornado, nos últimos anos, motivo de preocupação e tragédia. É que na época da chuva, a capital mineira tem sofrido com constantes alagamentos e deslizamentos.

Sujeira nos bueiros e lixo em lugar indevido até pode ser uma das causas deste problema. Mas, o verdadeiro motivo dos alagamentos é antigo e faz parte da história de BH: a canalização desenfreada de córregos e ribeirões pelos mais diversos pontos da cidade.

Durante todos esses anos, nenhuma administração municipal se mostrou realmente preocupada em dar vida aos córregos, riachos e ribeirões que por conta do imperativo de transformá-los em ruas e avenidas sanitárias sofreu com toneladas de esgoto e poluição.

Apesar de não ter nenhum grande rio cortando a área urbana, Belo Horizonte possui duas sub-bacias: a do Ribeirão Arrudas e a do Ribeirão da Onça, afluentes do Rio das Velhas, que juntos fazem parte da extensa Bacia do São Francisco.

No Dia Mundial da Água, 22 de março, o blog Café com Notícias traz um Raio X de uma cidade que, em nome da modernidade, nasceu planejada e já ignorando os seus principais cursos d’água. Um dos maiores exemplos disso é o Boulevard Arrudas, que não tem nada de Boulevard.

Na verdade, o projeto tampa o Ribeirão Arrudas na parte central de BH e o transforma numa ampliação da Avenida dos Andradas. Diante deste quadro, uma pergunta persiste: porque BH canaliza cursos d’água em nome da urbanização? A resposta está na história da capital mineira.

Onde está o rio?

Debaixo dessa rua tem um rio. Em cima desse rio passa uma rua. A frase pode até parecer estranha, mas faz todo o sentido quando estamos andando por Belo Horizonte. Segundo informações pesquisadas no Arquivo Público de BH, a Planta Cadastral da capital mineira, datada de 1895, foi completamente planejada com o intuito de ignorar os principais cursos d’água, uma vez que a Comissão Construtora da Nova Capital percebeu que os córregos da Serra, do Leitão, Pastinho e Acaba Mundo prejudicava o desenho inicial dos quarteirões que formariam, o que conhecemos atualmente, como a região Centro-Sul de BH.

Córrego do Acaba Mundo canalizado na Rua Professor Morais, em 1963, em BH. 

Fonte: ACPBH / Reprodução.

Na visão dos urbanistas daquela época, os cursos d’água eram prejudiciais para a ocupação humana, uma vez que muitos desses lugares tinham grande concentração de pântano, barro e alagava na época de chuva, formando pequenos lagos e cinturões de água. Em nenhum momento, os urbanistas daquela época pensaram na possibilidade de criar uma cidade que realmente fosse um jardim a céu aberto, respeitando os cursos d’água.

O que aconteceu é que os responsáveis pela construção de BH viram em alguns córregos a possibilidade de jogar o esgoto urbano, e não como uma oportunidade de ter um recurso natural que poderia conversar, facilmente, com a Cidade Jardim que estava se formando. A partir de 1920 começou o processo de canalização dos córregos e, em 1960, por conta dos constantes alagamentos, o processo de tampá-los e transformá-los em avenida e ruas sanitárias se tornou cada vez mais crescente.

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E esse processo de canalização não se deu apenas no século passado em BH. Para se ter uma ideia, neste semestre a Prefeitura de Belo Horizonte está finalizando a canalização da Avenida Sanitária Dois, no bairro Santa Mônica, na região de Venda Nova.

No bairro Céu Azul, na região da Pampulha, os moradores lutam há mais de cinco anos para que a Prefeitura faça obras de canalização no Córrego do Capão, mais conhecido como Navegantes. No final da década de 1990, uma parte do córrego se transformou na Avenida Navegantes, mas ainda falta o restante que cobre os bairros Céu Azul, Piratininga, Nacional,  Rio Branco e Vilarinho.

Córrego do Capão, no bairro Céu Azul, também conhecido como córrego da Av. Navegantes. 

Foto: Jornal do Céu Azul / Reprodução.

Ainda na região dos bairros Céu Azul e Mangueiras, a Prefeitura ignora há anos outro problema: o ribeirão que abastece a Lagoa da Pampulha que sofre com a poluição do esgoto vindo das casas e, mais recentemente, da intervenção socioambiental proposta pela Ocupação Dandara

Uma parte deste córrego virou avenida, mas a outra parte se transformou em um imenso esgoto a céu aberto, numa região que ainda possui chácaras e sítios. De todos os cursos d’água de Belo Horizonte, talvez o da Lagoa da Pampulha seja o que mais pede socorro: assoreamento, esgoto e degradação da fauna/flora.

A Lagoa da Pampulha já chegou a ter 300 hectares de extensão, atualmente, possui cerca de 190 hectares. Ou seja, em mais de 60 anos de existência, mais da metade já se perdeu com a falta de cuidado e planejamento. O local que foi construído com o intuito de ser uma espécie de contensão do grande volume d’água vindo de 42 córregos que forma o Ribeirão do Onça que deságua no Rio das Velhas, hoje agoniza em meio a tanta descaso das autoridades.

Enquanto o Poder Público não buscar parcerias para criar um programa real para devolver a bacia hidrográfica de Belo Horizonte aos belo-horizontinos, a cidade vai continuar enfrentando uma série de problemas que vai desde a degradação do meio ambiente às enchentes, alagamentos e deslizamentos. Claro, uma única administração não vai conseguir resolver mais de cem anos de descaso com os cursos d’água da capital mineira, mas é preciso um início, uma pactuação entre governo e cidadão para que a água potável seja solução, e não mais um problema.








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Jornalista




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8 comentários

  1. Oi Wander, realmente, essa situação é um problema que precisa ser resolvido começando pela conscientização da população para que exija do Poder público atitudes efetivamente eficientes, abçs

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  2. Francisco Bertoletta23 de mar de 2013 09:16:00

    Excelente reportagem, Wander. Uma das melhores que já li no seu blog. Pela primeira vez leio uma matéria que fala dos impactos que a canalização dos rios pode provocar numa cidade. Furo de reportagem. Abraços

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  3. Wander, pela primeira vez leio sobre isso. Agora só fico pensando no impacto que essa canalização dos córregos e ribeirões trouxe para Belo Horizonte. Precisamos de um prefeito corajoso que compre essa ideia de revitalizar os nossos cursos d'água.

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  4. Sempre achei que a canalização dos córregos fosse a solução, mas agora ao ler essa reportagem penso que o buraco é mais embaixo. Jogar esgoto nesses cursos d'água e tampar os córregos para transformá-los em avenida mascara um problema e traz um outro muito pior. É por isso que na época da chuva a população fica sofrendo com enchentes...vou te contar.

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  5. A grande questão disso tudo é o descaso que os cursos d'água de BH sofreram desde o início da cidade. Primeira vez que leio sobre isso e acho sim que a Prefeitura deveria repensar com o que está fazendo com os recursos hídricos da cidade. Parabéns pela reportagem!

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  6. Este é um problema que acontece em todos os lugares. O homem quer expandir a cidade, construindo sobre o que é da Natureza, como quando constrói empreendimentos imobiliários e vias públicas sobre leitos de rios, por exemplo. Um dia, a Natureza vem cobrar o que é dela.

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  7. Houve um problema com a data da Planta Cadastral, que foi em 1895 e não em 1985.
    Realmente, a grande impermeabilização que acontece nas grandes cidades, principalmente em Belo Horizonte, tem trazido sérias consequências para a população. Esse progresso, acompanhado do descaso com o meio ambiente já está recebendo o troco da Natureza: as frequentes enchentes e deslizamentos de encostas. É necessário que o poder público tenha consciência o impacto ambiental que está provocando e mudar seu planejamento urbano, senão poderemos sofrer ainda muito mais.

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    1. Obrigado pelo apontamento da correção no texto, Patrícia. Também agradeço a sua participação via comentário. Um forte abraço e volte mais vezes ao blog. :)

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