22 de agosto de 2009

Reportagem Especial: Pessoas Desaparecidas e uma história da vida real

sábado, agosto 22, 2009 - 12 Comentários


"Segredo de três,
só morrendo dois"


A frase forte era dita pela mãe de Fabina*, que soube aos 12 anos de idade, por
meio de um tio, que não era filha biológica do casal que a criava.



Mistérios, intrigas, discussões sobre o drama das pessoas desaparecidas e uma trama muita bem amarrada são o principal enredo dessa história da vida real. Será que existe realmente o crime perfeito? Confira essa reportagem especial.




A primeira vista, parece até enredo de novela, mas se trata de uma história real que poderia ter acontecido com qualquer um. Inclusive com você. Ao contrário de muitos casos de pessoas desaparecidas, a empresária Fabiana* está há mais de 10 anos fazendo o caminho inverso: ela procura os seus pais verdadeiros. As informações são truncadas, como se fosse um grande quebra-cabeça. Ao que tudo indica, Fabiana* foi roubada dos seus pais biológicos, ainda bebê, e adotada pelos seus pais de criação. Mas também existe a hipótese dela ter sido dada à família que a criou. A linha de investigação é ampla e, ao que tudo indica, está cada vez mais difícil fechar o quebra-cabeça. Clique aqui para ler os bastidores dessa reportagem especial.

Ela pode ter nascido em Belo Horizonte, Cuiabá, Brasília – DF, Vitória, Niterói, Ilha do Príncipe, Praia de Cassilianos, Aterro do Flamengo, Morro Agudo, Volta Redonda ou em Campo Grande, que foram cidades que ela também viveu durante um tempo. O registro da certidão de nascimento é do Rio de Janeiro, mas, segundo ela, isso não conta, pois Fabiana* foi registrada quando já era um pouco mais grandinha, por volta dos 10 anos de idade.


“A justiça brasileira, em nenhum momento, contesta o crime. Muito pelo contrário, às vezes, ela até cria uma situação propícia para ele ser praticado. Fui registrada quando estava mais grandinha, única e exclusivamente porque a escola em eu estudava exigiu isso dos meus pais. Em nenhum momento, o tabelião questionou se eu era realmente filha dos meus pais. Simplesmente me registrou. A partir daí você começa a pensar quantas crianças foram registradas conforme a lei tendo um crime por trás, sem ao menos a Justiça ficar sabendo”, contesta Fabiana*. A declaração, apesar de polêmica, não deixa de ter um fundo de verdade e, ao mesmo tempo, faz com que milhares de brasileiros tenham essa sensação de impunidade. Hoje com 38 anos, já casada, cursando faculdade, Fabiana* leva uma vida normal como todo mundo. Mas, mesmo assim, ora ou outra, ela se pega no passado – numa tentativa perseverante de entender o presente.

“Essa é a última vez que falo com a imprensa sobre este assunto por causa do desgaste emocional que a história causa”. Foi com essas palavras que ela topou em conversar realizar essa reportagem para contar um pouco do seu drama que é uma luta para entender quem ela é e onde tudo começou. Além disso, por conta da história dela, nos deparamos com mais uma situação: o sofrimento das famílias que sofrem com pessoas desaparecidas. Fabiana* é uma exceção, pois faz o caminho contrário: ela procura pelos pais. Em Minas Gerais, a história é outra: centenas de mães procuram pelos filhos, num total de 1495 investigações em andamento de pessoas desaparecidas. No Brasil não existem dados oficiais que determinem a quantidade de crianças e adolescentes desaparecidos. Anualmente, sabe-se que, no total de casos registrados na Polícia Civil, um percentual de 10 a 15% permanecem sem solução por um longo período de tempo, e, às vezes, jamais são resolvidos.



Atualmente são 1495 casos de pessoas desaparecidas, só em Minas Gerais. Destes, 10,01% são de menores de 18 anos. As causas são as mais variadas, que vai desde a problemas familiares à exploração sexual. Em conversa com a Delegada Cristina Coeli, responsável pela investigação dos desaparecidos, caiu-se o mito de que é preciso esperar 24 horas para o início das buscas. "Isso é uma lenda que as pessoas tomaram como verdade. Quanto mais rápido o familiar do desaparecido acionar a polícia, munido de documentos e fotos, para lavrar o boletim de ocorrência, mais chance teremos de localizar essa pessoa", conta.


O passado e o presente


Fabiana* teve uma infância normal como muitas crianças. Foi para escola, não dispensava um bom futebol com os meninos da rua – o que lhe rendeu inúmeras brigas com a mãe por causa do jeito moleca de levar vida. Ela brincou muito. Subia em árvores e, por ter um ano de diferença do irmão, os dois estavam sempre com a mesma turma e aprontando inúmeras aventuras pelo bairro onde moravam.

Foi no dia da ceia de natal, por volta dos 12 anos de idade, que Fabiana* descobriu que não era filha do casal que a criava. Depois de uma insistência do Tio Zeca, que não era bem quisto pela mãe dela, ela e o irmão, foram passar o Natal na casa do Tio. Ao chegarem na casa do Tio, Regina, a filha dele, que já era mais adulta, começou a brigar com o pai insistindo para que Fabiana* soubesse de toda verdade. O tio contou de forma simples e direta. Na hora, apesar do baque que uma notícia dessa representa na vida de qualquer pessoa, Fabiana* não ligou. Como muitas crianças de sua idade, ela e o irmão só queriam saber da ceia de natal.


Essa natal foi extenso. Durou mais dias do que o previsto. Fabiana* e o irmão passaram um bom período na casa do Tio Zeca. Nesse meio tempo, Regina mostrou um álbum para Fabiana* onde havia a notícia de que ela havia sido seqüestrada. “Era um jornal amarelado, bem velho mesmo. Nela havia a notícia que, supostamente, eu era o bebê que havia sido seqüestrado. Hoje, mais de 20 anos depois, tento lembrar o que estava escrito nele, mas não consigo. Por ser muito nova, na época não dei muito importância. Mas isso foi o ponto de partida para eu começar essa história da busca pelo meus pais biológicos”, conta. Pode ser um missão difícil, mas não impossível.

Fabiana* acredita que as chances de encontrar seus pais verdadeiros são muito pequenas. “Acho difícil. Estamos numa verdadeira agulha no palheiro. As chances são uma e um milhão. A maioria das pessoas que tentam procurar seus familiares tem alguma pista, uma medalhinha, uma cicatriz, uma mancha de nascença. Eu não tenho nada disso. Só sei dessa história truncada. Pelo que já conversei com os médicos, a pista que tenho é que, provavelmente, meus pais tenham olhos claros, verdes ou azuis, pois todos os meus filhos possuem essa herança hereditária. A família do meu marido ninguém têm olho claro. Meus olhos são verdes escuros, só quem me conhece muito bem, nota. Essa é uma pista desse gigantesco quebra-cabeça”.


Quando retornou para a casa dos pais, após o período de natal, Fabiana* questionou a mãe, que atendia pelo codinome Sandra, que sempre se esquivou de dar a resposta. “Segredo de três, morre com dois”, essa era uma das frases de efeito que a mãe dela falava toda vez que se tentava tocar no assunto. O pai de Fabiana*, conhecido por amigos e familiares como Peão, havia morrido um pouco antes desse natal em que a verdade havia sido revelada. Também, depois desse natal, ela não teve mais contato com o Tio Zeca, com quem a mãe contou, um tempo depois, que havia falecido. A única que sabia realmente da verdade em torno da história era a mãe, pois pai e tio já haviam falecido - Fabiana* havia sido adotada na marra. Se foi seqüestro ou adoção por caridade, isso nunca foi revelado. O fato é que, um pouco antes de falecer, no ano passado, a mãe levou o segredo com ela, para debaixo da terra. Todas as três pessoas que sabiam a verdadeira história morreram.

No início, até por não querer se expor e ter uma vida constituída, Fabiana* ficou com receio. Depois de conversar com Dra Cristina e ver que a história dela, ao ser divulgada de forma íntegra, poderia confortar outras pessoas que sofrem desse mesmo problema, Fabiana* topou. “Só Deus sabe o quanto voltar no passado já me machucou. Já passei por vários testes de DNA e todos eles não deram em nada. Quem sabe se essa história terá um desfecho interessante: que alguém que leia possa contribuir com algum pedacinho deste quebra-cabeça. Os grandes autores falam que não existe crime perfeito, quem sabe? A minha chance de ter o caso solucionado é uma em um milhão. Só de poder ajudar no conforto de alguém que vive esse drama de ter um familiar desaparecido, já é um passo importante. Quantos pais passam por isso e sonham rever o filho algum dia? Como mãe, possa falar que saber que o filho já está bem é confortante”. E assim Fabiana*segue a vida. Vida essa que, de uma maneira ou outra, ajudou ela ser quem é hoje: uma mulher guerreira.


Internet


Por ser um meio de grande difusão de informações, a internet se tornou um espaço propício para campanhas de localização de pessoas desaparecidas. Um dos exemplos de maior repercussão na blogosfera, foi o do blogueiro Nicholas Gimenes, estudante de administração, que mora na cidade de Campinas, em São Paulo, que criou widgets - uma espécie de aplicativos com códigos de HTML/Javascript, em que outros blogueiros ou webmasters podem colocar em seu site uma seqüência de fotos de pessoas desaparecidas, atualizadas mensalmente, de acordo com o idealizador.

“Todo mundo discute potencial da internet e seu grande alcance em blogs e redes sociais. Pensei: porque não ajudar essas pessoas? È uma prestação de serviço para quem sofre esse drama. Conheço uma pessoa com 30 e poucos anos que não conhece os pais. Acho que a partir daí veio à idéia”, revela. Nicholas recebe a ajuda da artista plástica Ornella* (nome usado na internet como pseudônimo, devido a outros trabalhos que ela atua) militante da causa que participa de vários projetos envolvido a busca de desaparecidos e denúncia de exploração sexual no Rio de Janeiro.


Ornella, teve que criar esse nome fictício por ser ameaçada por vários pessoas na internet, quando usava o seu nome real. Ela coordena o site Pessoas Desaparecidas que já ajudou muitas mães a reverem os filhos, na capital carioca. Inclusive ela é uma das militantes da ONG Mães da Sé. “O que as pessoas não sabem é que existe uma quadrilha especializada em tráfico de órgão que aproveita as fragilidades da nossa legislação para atuar. Muitos casos de crianças desaparecidas acontecem por isso, além do fato da exploração sexual e da pedofilia dentro de casa”, revela. Dos quatro ao nove anos de idade, Ornella foi vítima do tio pedófilo, dentro da sua própria casa.

A iniciativa de Nicholas, que foi criado em outubro de 2007, repercute até hoje e é aplaudida por milhares de internautas. Outro ponto desse ato de solidariedade é que os sites criados para cadastrarem desaparecidos e auxiliarem esse tipo de buscam inibem que os familiares tentem encontrar pessoas, pois há muitos dados e exigências impossíveis de serem preenchidas, em alguns casos. Se pegarmos o exemplo de Fabiana*, ela não consegue se cadastrar para procurar os pais por não saber como eles são fisicamente, muito menos os seus documentos. Em contrapartida, os idealizadores destes sites como o Desaparecidos MG, Busca de Pessoas Desaparecidas e CNPD - Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas argumentam que são com esse tipo de mecanismo é possível encontrar pessoas e, inclusive, inúmeras pessoas já foram encontradas.




*Fabiana é um nome fictício da personagem contada nesta história. Por motivos pessoais, ela não quer se identificar.






Essa semana eu volto com mais
Café com Notícias.






Wander Veroni
Jornalista

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Sobre o autor

Wander Veroni é jornalista especializado em Mídias Sociais e um entusiasta do empreendedorismo na web. Para segui-lo, basta acompanhar @wanderveroni e @cafecnoticias.
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Mais café, por favor!

12 comentários :

  1. Que matéria espetacular, em nosso pais e no mundo existem milhares de pessoas que passam por este problema, o 0800 depois de criado nos deu meios mais precisos para as buscas e pelas estatisticas apresentada, tem se mostrado muito eficaz. Parabéns nota 10.
    Abraços forte

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  2. Parabéns pela brilhante reportagem, Wander! É uma ferida grande e que muitos evitam tocar.
    Abraços

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  3. Parabéns. Adoro sites úteis como esse. Li a história inteira, muito intrigante e arrisco-me a dizer interessante. Achei incrível a notícia. Beijos

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  4. Que pauta é essa Wander? Simplesmente...sensacional!
    O drama de Fabiana deve ser mesmo, muito mais comum do que nós imaginamos. Milhares de "Fabianas" vivem a mesma realidade. Porém, não nos atentamos ao fato, até que aconteça com alguém próximo a nós.
    Espero sinceramente, que este blog consiga auxiliá-la nessa busca. Não deve ser fácil viver na incerteza e não saber a origem da própria vida.
    É isso aí! Mais uma vez o Café com Notícias divulga algo, em benefício da sociedade.
    Parabénss!

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  5. Oi Wander.
    Estou sem net.
    Justamente nas festividades do Café com Noticias não estou podendo acompanhar os brindes.
    Sinto falta de estar aqui e em outros blogs queridos para comentar, mas daqui a pouco volto!!!
    Beijos

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  6. Oi, Rê!

    Que chato, hein! Estou aqui torcendo pela sua volta à blogosfera, viu! É muito ruim ficar sem internet, né!

    Beijos :D

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  7. Olá Wander, venho anunciar que tem um selo esperando por você lá no meu blog Antenado!

    Um abraço!

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  8. Muito bom o seu blog (de verdade)...
    Olha, essa questão é realmente uma ferida da nossa sociedade, é triste dizer mais existem tantas "fabianas".
    PARABÉNS!!!
    :)
    Abraços.

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  9. Adorei esta matéria, muito bem escrita!! Parabéns

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  10. Excelente reportagem Wander !
    Parabéns pela sensibilidade e ética jornalística
    Abraços
    Mário Augusto

    Veja em meu blog:

    Busca e cadastro de pessoas desaparecidas:

    http://alagoasreal.blogspot.com/2009/10/busca-e-cadastro-de-pessoas.html

    MDP Search : Busca por mortos , desaparecidos políticos e direitos humanos :

    http://alagoasreal.blogspot.com/2009/10/mdp-search-busca-por-mortos.html

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  11. Gostei muito desta matéria.A luta de Fabiana*é realmente comovente e muito emocionante.Espero que ainda tenha a felicidade de encontrar os pais biológicos.Ao mesmo tempo fico imaginando como seria emocionante reencontrar meu irmão gemeo,que saiu de casa a uns 30 anos atraz,após uma discussão com meu pai.Especialmente para minha mãe,aos 70 anos seria muito emocionante.

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  12. Oi sou responsavel pelo site http://www.acharpessoas.com/ e achei este artigo sensacional e muito comovente, Depois de passar por esse problema na pele e não encontrar muita informação a respeito resolvi por criar este site, realmente recebo milhares de email de pessoas pedindo para ajudar a procurar pessoas todos os dias, sinto que não tenho como ajudar mais mas fico contente e ver outros sites que disponibilizão informação a respeito. Parabéns

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