19 de abril de 2012

Cine Café – Filme Um Método Perigoso mostra os desafios da psicanálise

quinta-feira, abril 19, 2012 - 15 Comentários


“O mundo é o mundo e sempre foi assim, nada mudou”. Sigmund Freud


Não duvide do poder da PALAVRA, principalmente da FALA. É por meio da fala – quando se permite expor os sentimentos, que se é possível chegar à cura. Só dessa maneira, quando se fala e, principalmente, se escuta, é que conseguimos nos conhecer e a exorcizar os nossos fantasmas emocionais. A grosso modo, isso que é a análise, a cura pela fala. É a partir desta premissa que o roteirista Christopher Hampton e o diretor David Cronenberg trazem à telona o filme Um Método Perigoso (A Dangerous Method / 2012), distribuído pela Imagem Filmes, com duração de 111 minutos e baseado na peça teatral The Talking Cure.

O longa apresenta, pontualmente, a história de como a psicanálise – inventada por Sigmund Freud (Viggo Mortensen), foi utilizada como método clínico por Carl Gustav Jung (Michael Fassbender) para o tratamento da paciente dele, a russa Sabina Spielrein (Keira Knightley). Da comprovação do método, Jung e Fred se aproximam de uma forma intensa, onde a troca de conhecimento científico se transforma em um perigoso triângulo amoroso, até o momento do rompimento científico desses dois importantes personagens da psicologia. O elenco conta com nomes como Vincent Cassel, Sarah Gadon, André Hennicke, Arndt Schwering-Sohnrey, Mignon Remé, Mareike Carrière, Franziska Arndt, Wladimir Matuchin, André Dietz, entre outros. Assista o trailer:



Do ponto de vista cinematográfico, é preciso compreender que o filme Um Método Perigoso mostra uma nova faceta do diretor David Cronenberg, que vinha de filmes que retratavam a violência de forma bastante crua como em Marcas da Violência e Senhores do Crime. Neste filme que aborda três célebres nomes da história da psicanálise (Freud, Jung e Sabina Spielrein), Cronenberg optou por um caminho onde a palavra e o diálogo são os elementos mais importantes da história, em detrimento da ação em cena ou da passagem cronológica. A palavra é que dá o tom da história e apresenta nuances dramáticos fundamentais para a compreensão da trama.

A palavra se torna a grande protagonista em Um Método Perigoso, o que ajuda ao público entender o poder de cura da psicanálise e, ao mesmo tempo, o quanto é perigosa a relação – naquele primeiro momento, entre o analista e a sua paciente que não consegue se desligar do elo de transferência emocional. Além disso, o filme começa contando a história de Jung para Freud, o que faz com que o público consiga entender a quão perturbada era as emoções de Jung que, ora reprimia seus instintos sexuais, ora não conseguia colocar para fora o que sentia de forma verdadeira e sem culpa.

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No filme, Freud e Sabina são antagonistas de Jung. E a palavra tem um peso em cena muito maior do que qualquer elemento cenográfico ou gesticular dos atores. A valorização da palavra, do diálogo como personagem, chega a lembrar de elementos presente no teatro. Ao mesmo tempo, a direção do filme se mostrou bastante preocupada em reproduzir o ambiente de época, tanto pelo cenário, quanto o figurino. Freud aparece no filme para mostrar ao público o quão sombria é a mente de Jung a ponto dele subjugar as pessoas, para esconder ou omitir aquilo que ele realmente sente.

Outro ponto marcante da história é o nascimento clínico do sadomasoquismo, do prazer sexual por meio da agressão e humilhação. A partir do momento em que Sabina aceita que os seus desejos sexuais não devem ser vistos com culpa, é que ela consegue se livrar da histeria e ter uma “vida normal”. Mas, foi aí que a trama principal se desenhou: Sabina tinha um talento natural para a psicologia/psiquiatria e foi estudar medicina, tendo Jung como seu grande mentor intelectual num primeiro momento. Desse contato de médico e paciente para mentor e aprendiz, foi surgindo a chamada transferência emocional que culminou, tempos depois, numa amizade à forte tensão sexual.

Para quem faz análise ou tem curiosidade sobre o tema, o filme Um Método Perigoso é um prato cheio para entender as nuances deste tipo de tratamento que revolucionou a história da psicologia. Apesar de não ser especialista na área, concordo com uma passagem de Freud no filme em que ele fala que “todos os problemas da humanidade passam pela sexualidade, seja na repressão ou na manifestação entusiasmada da libido”. A grande questão da vida civilizada é chegar a um consenso de até aonde é possível se policiar para não se expor ou reprimir demais para, desse modo, não se tornar uma pessoa frustrada ou doente. Cheguei a conclusão que mente humana é mais complexa do que se imagina ou se tem ideia....o que é fascinante!

Por evidenciar muito o diálogo, Um Método Perigoso é um filme que tem pouca ação e, em um determinado momento pode até parecer cansativo, mas não é. Trata-se apenas de um recurso do diretor que inovou ao mostrar que o cinema pode beber de outras fontes e, a partir disso, criar elementos próprios. Apesar do elenco ter nomes bastante conhecidos, não se trata de um filme comercial. O enquadro como alternativo, porque exige uma outra leitura da história e, principalmente, do seu contexto. Para quem gosta do tema, é um filme que merece ser assistido mais de uma vez e tê-lo na estante em DVD para posterior consulta, pois diálogos são intensos e instigantes. Vale a pena conferir!


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Jornalista

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Sobre o autor

Wander Veroni é jornalista especializado em Mídias Sociais e um entusiasta do empreendedorismo na web. Para segui-lo, basta acompanhar @wanderveroni e @cafecnoticias.
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15 comentários :

  1. Ei querido. Pelo seu relato o filme deve ser muito interessante, fiquei morrendo de vontade de ver. Tenho amigas que já fizeram análise e sei que é um método que ajuda bastante. Parabéns pela resenha! Beijos

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  2. Assisti este filme na semana passada e achei muito lento, me deu um sono danado. Mas acho que é pq não conhecia a história. Agora que li o seu post é que entendi a proposta.

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  3. Fiz análise quando era adolescente e me ajudou muito a me liberar, a me soltar mais. É muito bom ver que existe filmes como esse que explica a história do tratamento que não tem nada de perigoso, pelo contrário, salva vidas e promove a cura pelo diálogo.

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  4. Francisco Bertoletta20 de abr de 2012 11:39:00

    O filme me parece excelente...só por mostrar a histórias de dois grandes expoentes da psicanálise, Freud e Jung. Com certeza vou assistir neste final de semana. Ótima dica meu caro. Abraços

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  5. Assisti o filme e achei muito lento, senti falta de ação, de ritmo. Mas agora que li a sua resenha muita coisa fez sentido para mim. Esses filmes muito intelectualizados deveriam vir com uma explicação prévia, se não você sai boiando da sala de exibição...hehehe

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  6. Assisti o filme no último final de semana e gostei do que vi. Mas, ao sair da sala de cinema, comentei com um amigo que se fosse uma mini série da HBO, de poucos capítulos, ia ser melhor ainda. Tinha tanta história para contar, para aprofundar, que dava vontade de ver mais. É um ótimo filme! Parabéns pela resenha.

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  7. Marcos Fagundes Filho20 de abr de 2012 13:34:00

    Ainda não assisti o filme, mas fiquei com vontade de ver. O brasileiro ainda não é muito fã de psicologia e tem uma resistência até cultural com o tratamento. Quem sabe o filme seja uma boa para desmitificar o tratamento por meio de um relato histórico e com personagens reais? Sou fã de alguns livros do Jung...e se seguir um pouco que sei da história dele vai render um ótimo filme.

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  8. Tenho uma prima que faz psicologia e ela vai adorar ver este filme. Vou compartilhar este post para ela ver. Boa dica de filme! Será que ainda está em cartaz onde moro? Vou procurar saber.

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  9. Nossa, deve ser um filme muito bacana. Fiquei de cara com a sua resenha. Adorei! Faço análise há mais de 10 anos e não tenho coragem de fazer com um profissional do sexo masculino para não correr de me apaixonar....sei que isso não tem nada a ver, mas sei dos meus limites...hahaha.

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  10. Assisti o filme e discordo de você quanto a falta de ação. O filme tem ação, mas é por meio dos diálogos. A história muda por conta dos diálogos, da troca de cartas entre Jung e Freud. No mínimo, o filme é fiel a história e muito bem executado. Coisa rara hoje em dia.

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  11. Só de ter Freud, Jung e Sabina Spielrein como personagens principais do filme pra mim já vale super a pena. É claro que vou assistir! Muito boa a resenha cara, parabéns.

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  12. Gilda Marcondes Mello da Cunha20 de abr de 2012 13:50:00

    Oi Wander. Tudo bem? Vi o filme e achei o Jung um canalha. O que ele fez com a Sabina e com a esposa dele é coisa de cafajeste. Freud viu que ele não tinha uma boa índole e ficou surpreso como Sabina resolveu essa mentirada toda...ela é uma dama. Ficou muito boa a sua resenha...consegui entender ainda mais coisa do filme. Beijos

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  13. Maria das Graças Antunes20 de abr de 2012 13:53:00

    Sabe Wander, sou apaixonada pelo trabalho de Freud. Ele foi uma das pessoas que mais ajudou a humanidade a entender de si. Ainda não vi o filme, mas espero que os roteiristas respeitam a história dele, de Jung e Sabina. Foram ícones da psicanálise. O mundo deve muito a eles.

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  14. Sou estudante de psicologia e todo mundo da minha faculdade está comentando sobre este filme. Ainda não vi, mas quero ver agora principalmente por causa da sua resenha. Adorei!!! O blog é muito bom, parabéns.

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  15. Felipe Sodré Ramalho20 de abr de 2012 14:43:00

    Assisti ao filme e posso falar que através da sua resenha consegui entender muita coisa da história que não tinha me dado conta. Um método Perigoso é um filme diferenciado e muito bem feito. Quando sair em DVD vou fazer questão de comprar.

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Adaptado por Giselle Carvalho | Imagem Header Crédito Psyho .
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